Passivos e pacíficos

pictureQuase todos os dias e em quase todos os lugares, há passeatas e escritos pela e sobre a paz, pedidos de paz, orações pela paz. Parece que apenas os loucos desejam a guerra. Mas não é e não tem sido bem assim. A história da humanidade é a história de suas guerras. Desde que tomou posse de um pedacinho de terra e teve um vizinho ao lado, o ser humano nunca mais viveu tempos de paz permanente.

Onde se pretender impor o desejo de um sobre o outro, aí estará a guerra. Em todos os níveis humanos. A guerra faz parte de todo o instrumental da política das pessoas e das nações. Diz-se que a guerra é a extensão da diplomacia, ou que ela acontece quando a diplomacia falha. De qualquer maneira, a guerra resulta de um desejo não imposto a alguém. Clausewitz – o “Filósofo da Guerra” e ainda hoje respeitado – define a guerra como “um ato de violência planejado para forçar o adversário a executar o nosso desejo.” Essa guerra pode se dar entre nações e entre vizinhos, dentro do próprio lar. A guerra, pois, acontece quando se força o outro a executar o nosso desejo.

Quando o povo diz que “quando um não quer, dois não brigam”, diz a verdade. Só que, na maioria das vezes, trata-se da rendição de um em relação ao outro. A mulher grita, impõe, o marido se cala – um não quis, dois não brigaram. E o contrário, também: o homem berra, a mulher se cala – ela não quis, dois não brigaram. Essa rendição não é paz, mas a guerra que existiu, com a vitória de um e a derrota de outro. Ao silêncio e à rendição, não se pode dar nome de paz. A menos que, por paz, se entenda, apenas, a ausência de guerra. Paz é mais do que isso.

Esse, talvez, seja o equívoco dos que, às vezes até com candura, pedem paz, oram pela paz. A paz é uma conquista. A paz é luta, ação. Quando Gandhi propôs a não-violência, a sua foi uma ação guerreira. Ele estava, à sua maneira, usando da espada. Gandhi tinha perfeita noção da diferença entre ser pacífico e ser passivo, entre a paz e a passividade. Quase sempre, os que ficam pedindo pela paz são muito mais passivos do que pacíficos. Querem a paz, desde que ela seja construída pelos outros. Os antigos, porém, tinham clareza das coisas: “se queres a paz, prepara a guerra.”, o celebérrimo “si vis pacem, para bellum”.

Quando a União Soviética ruiu, os Estados Unidos tornaram-se senhores do mundo. A URSS estava preparada para a guerra, os Estados Unidos, também. Então, um temendo o outro, a paz existiu. Quando não há resistência, quando não há oposição, a guerra acontece como a vontade do mais forte. O simples medo do outro pode impedir a guerra. Os pacifistas, portanto, são grandes lutadores. Entre bem intencionados, quase sempre há passivos escondidos por trás de palavras, de orações e de marchas.

Ora, essa diferença entre pacíficos e passivos não precisamos encontrá-la nos grandes conflitos internacionais. Basta ver as ruas de nossas cidades. Há uma guerra. E os que desejam a paz no trânsito, nas ruas, nos quarteirões, esses têm que lutar por isso. Se é guerra, há que se estar preparado para ela. Ser pacifista sem agir é apenas ser passivo. Passivos pedem, pacifistas agem.

Orar pela paz é bom. Mas não resolve. Pois se, do outro lado, há os que rezam pela guerra, como é que Deus fica com o empate de orações? Nas cidades, há uma guerra civil. Se o povo quer paz, precisa, pois, preparar-se para essa guerra. Na guerra com os bandidos, é preciso guerrear contra eles. Pacifismo é estar preparado para enfrentar. Passividade é ficar apenas reclamando. Bom dia.

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