PC – Partido das Crianças

O texto foi publicado em O Diário em 2 de setembro de 1979. E depois selecionado para o livro Bom Dia – Crônicas de Autoexílio e Prisão, lançado em 2014.

Pais e professores, penso eu, precisam chegar a um acordo urgente. Se isso não acontecer, penso eu, as nossas crianças continuarão sendo as grandes vítimas. O problema não é de notas, mas de informação. A escola, por exemplo, ensina a história oficial. Mas a oficial não é a verdadeira. Um exemplo é o golpe de 1964. Quem viveu aqueles dias não pode concordar com o que se ensina a respeito e, em nome da honestidade e da própria consciência, é obrigado a contestar. Cria-se, então, o conflito: se os pais concordam com os livros e os professores são omissos, estão colaborando para o ensino da inverdade. Se discordam, as crianças ficam em dúvida quanto à própria verdade, além de se arriscarem a ter notas riscadas porque contam o que aconteceu e não o que estão nos livros oficiais.

Qual é a saída? Confesso não saber, apesar de ensinar a meus filhos o que realmente aconteceu, dando-lhes outros livros de consulta, na esperança de que formem a sua consciência crítica e que a consciência de muitos professores fale mais alto do que a obrigação oficial de mentirem oficialmente. A dificuldade não fica apenas aí. Entra, também, no campo da Ciência. Outro dia, uma de minhas crianças, que cursa o início do primário, veio me dizer que o livro que estudara era um livro mentiroso. Sua preocupação era a água e o ar. “Olhe aqui, paiê. O livro fala que o ar é inodoro e incolor. Inodoro não é o que não tem cheiro?” Concordei. Então, ela me colocou a faca no peito. “Como o ar não tem cheiro se a gente num aguenta o cheiro do ar de Piracicaba?” Em seguida, falou da água: inodora, insípida, incolor. “Num é nada disso, paiê. A água tem gosto ruim, cheira ruim e tem cor suja”.

Como explicar a uma criança que o ar não é isso que ela está respirando, nem a água, essa que ela está bebendo? Dei-lhe a explicação científica, expliquei-lhe mais um pouco sobre a poluição, o crime que se comete contra a natureza. E ela, com os negros olhos ariscos, me fez a mais simples de todas as perguntas: “Então, porque não prendem eles, paiê?” Criança atrevida. Já estaria, também, querendo transformar o mundo? Daqui a pouco, vou ingressar na fileira dos utopistas que desejam que todo o poder se transfira para as crianças. As guerras se transformariam em lutas de bodoques. A solidariedade voltaria a surgir sobre a face da terra. Não haveria, mais, perguntas sem resposta, pois as crianças têm a suprema sabedoria de saber responder a todas as coisas. Mesmo quando perguntam já sabem do essencial.

O ar tem cheiro, sim. A água também tem cheiro e sabor. Os homens que destroem a natureza deviam estar na cadeia. As crianças estão certas. Os errados somos nós, que vivemos mistificando a verdade, inventando palavras difíceis para dar explicações fáceis, sonegando a informação honesta pelos interesses de uma classe ou de alguns grupos. Não quero mais saber da política, mas se o governo autorizar o surgimento do PC, entro nele. Só o PC pode salvar a humanidade. O Partido das Crianças é a única solução. Afinal não são elas, as crianças, a maioria do povo? Por que, então, os adultos devem governar um país que é delas? Bom dia.

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