Pensando em Soraya

picture (18)Diante das tragédias do Oriente, acabo sempre pensando em Soraya. Ela foi uma lenda, história da carochinha, um conto de fadas – ainda que tristes e trágicos. O mundo, naquele ano de 1951, apenas ensaiava os que seriam “anos dourados” quando Soraya apareceu e o iluminou com a dramática doçura do amor oriental. Como se anunciando mistérios, o amor chegou da Pérsia. Foi uma história que já viera traçada pelas estrelas. O destino de Soraya estava escrito. Apenas os pastores de ovelhas – que conhecem o mistério a partir da contemplação dos céus – viram o que as estrelas diziam. E choraram, antecipadamente, por Soraya.

O mundo, então, era mais ingênuo e bonito. E os mais belos e misteriosos devaneios, sonhos e encantamentos ainda vinham da Pérsia. . Mesmo tendo-se tornado Irã, aquela terra de mistérios nunca deixou de ser Pérsia, o imaginário ocidental alimentado por versos de Omar Khayan, pelos contos das mil-e-uma-noites, a mistura entre persas, árabes, hindus, a fluida presença de Sheerazade narrando sabores, perfumes, a antevisão do Éden… A Pérsia ressoava, no Ocidente, como um lugar de maravilhas e de fantasias, de mistérios e de lendas. Por isso, Soraya surgiu mais como princesa persa do que iraniana, amada esposa do todo poderoso Xá Rheza Palehvi.

Não houve casamento igual. Foi como se o mundo ouvisse Soraya e o Xá sussurrando o Cântico dos Cânticos: “Ó, Rheza, amado de minha alma, aponta-me onde é que tu apascentas o teu gado…” E ele, despindo-se de toda a majestade para se tornar amante enternecido: “Ó, como és formosa, Soraya; teus olhos são como os das pombas, teus dois seios como filhinhos gêmeos da cabra montesa; jardim fechado és tu, Soraya, jardim fechado, fonte selada.”

Ninguém imaginou aqueles rios de leite e de mel viessem a secar. De Soraya, o reino e o rei nada queriam a continuidade da dinastia, filhos abençoados por Alá. Soraya, a fértil, Soraya, a promessa; Soraya, a bem amada… E ela, confiante em seu amor e em seu ventre, parecia cantar, a cada noite, para o seu rei: “Vem, amado meu… Levantemos de manhã para ir às quintas, vejamos se a vinha tem lançado flor, se as flores produzem frutos, se as romãs já estão em flor. Ali te darei os meus seios.”

E, então, o ventre abençoado de Soraya secou. De bendita, ela se tornou maldita. Estéril, Soraya viveu a agonia de, em dez anos de casada, conseguir gerar um filho. Foi como se o mundo, a cada manhã, esperasse a janela do quarto dos amantes se abrir e, então, uma Soraya radiante anunciar: “Eu concebi.” Mas seus olhos tristes entristeciam-se cada vez mais.

Os deuses negaram, a Soraya, ser mãe do herdeiro do Xá. Estéril, ela foi repudiada, trocada por outra mulher cujo ventre pudesse ser fecundado. E terminou a história de amor: Soraya foi-se para o mundo, os olhos tristes olhando a Pérsia à distância, onde Fara Diba – outra bela mulher – dava filhos ao Xá bem amado. Tudo acabou. O Xá foi deposto. O encanto da Pérsia cedeu à aspereza do Irã. Soraya continuou exilada em si mesma, os olhos tristes vendo o sonho ruir.

Quando ela morreu, em 2001, quase ninguém chorou por Soraya, pois o mundo não tinha mais olhos de chorar por histórias de amor. Quase no anonimato, Soraya levou a sua dor para um jardim desconhecido. E, talvez, um último canto: “Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que, se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor.” Bom dia.

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