“Pérfida Albion”, camisinha, extradição.

A Inglaterra foi conhecida, no passado, como a “Pérfida Albion.” Era Albion por ter sido assim chamada pelos antigos romanos. E pérfida por, segundo o poeta que a qualificou, ser o reino onde se dizia uma coisa e se praticava outra. Pouca coisa mudou, ao que parece. Ou quase nada.

Se o mundo tivesse, ainda, capacidade de estupefações – e se, pelo menos, pessoas ainda houvesse que se indignassem ao se sentirem enganadas – os movimentos de rebeldia não nasceriam, apenas, por interesses estratégicos, econômicos ou pelo primitivismo de tiranias. Aconteceriam, também, pelos ludíbrios universais, pelos acordos entre conglomerados e nações, dos quais meios de comunicação poderosos passaram a fazer parte. Pois, enfim, realiza-se a comunhão mais desejada por apetites inesgotáveis, a do poder econômico e do político. O ideológico – em nível de idéias, de propostas humanísticas – este foi engolfado, quando não cooptado, pelos tentáculos do econômico e político.

Vejamos algumas das absurdas enganações de que o mundo está sendo vítima. Tomemos, como exemplo quase banal, a questão das extradições de pessoas de um para outro país. O Brasil, até agora, não entende o que está acontecendo em relação ao italiano Battisti, aqui preso, tido, por uns, como simples bandido, e, por outros, como um asilado político. Os debates são intenso, virulentos. No entanto, um outro pedido de extradição está sendo conduzido com uma aparente indiferença pelos meios de comunicação, quando, na verdade, é simbólico de todas as manobras sórdidas que impedem se alcancem os alicerces do poder. Trata-se da perfídia que se comete contra Julian Assange, o homem que, através do Wikileaks, está desnudando o poder de todas as grandes potências, revelando as víscera de governos, negociatas, negociações nebulosas e farsas desconhecidas dos povos.

O governo dos Estados Unidos está com as garras afiadas, feito verdadeiro abutre, para apanhar e punir Assange, sem ter, no entanto, motivação legal que o justifique. É óbvio que, mais outra vez, teria que recorrer a um de seus aliados, em especial à “Pérfida Albion” que, desde Margaret Tatcher, está disposta a todas as subserviências ao império decadente. Ou há quem já se tenha esquecido de que Tony Blair foi chamado, pelos próprios ingleses, de “poodle de George Bush”?

Pois bem. A Suécia, que serve de intermediária do governo estadunidense na caça a Assange, encontrou um motivo esplêndido, formidável, de alto interesse da segurança mundial para processar e condenar Assange, já que ele teve relações sexuais não permitidas pela lei suíça: não usou camisinha de uma feita e de outra, a camisinha estourou. As moças reclamaram muitos meses depois e a Suécia pede, desesperadamente, que a Inglaterra autorize a extradição de Julian Assange, que vive acuado em Londre. E a “Pérfida Albion” não se fez de rogada: autorizou que ele fosse enviado à Suécia, pelo crime hediondo de não ter interrompido uma relação sexual quando a camisinha estourou.

O terrível é que ninguém mais quer lembrar de que foi negada, aos Estados Unidos, a extradição do cineasta Roman Polanski, condenado pela justiça estadunidense por ter violentado menor há cerca de 30 anos. A Inglaterra, revivendo a “Pérfida Albion”, autoriza uma extradição baseada nos valores morais e legais dos suíços, escandalizados por uma camisinha. E, na Europa, continua negando-se a extradição de Polansk, um confesso e condenado pedófilo. E dizer que Barack Obama – que lidera esse grupo e que já admite a invasão da Líbia – ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Como diria meu pai, velho árabe: “charmuta de vida manhuk”. Nem o Google, creio, saberá traduzir. Árabes sabem. Bom dia.

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