Piracicaba e estrangeiros

Poucas cidades interioranas do Brasil tiveram, como Piracicaba, tão rica convivência com o estranho. E, por estranho, entendamos o outro: estrangeiros, migrantes e imigrante, os que vieram para ficar ou para estar por algum tempo.

Ao final do século 19, já eram comuns as chamadas colônias de italianos, espanhóis, árabes, alemães, franceses, ingleses, logo após também japoneses, judeus. Por outro lado, nossas escolas tinham excelentes internatos, como os do Colégio Piracicabano, Colégio Assunção e também a Escola de Agronomia, atual ESALQ – para as quais vinham jovens de todo o Brasil em busca de educação e formação. Ainda hoje, é comum esbarrar-se – em qualquer parte do país – com alguém que se casou com mulher piracicabana, ou, também, que tenham avós, bisavós ou parentes piracicabanos.

Piracicaba soube como conviver com o estranho, acolhendo-o, mostrando-lhe nossa cultura e, ao mesmo tempo, sofrendo a influência natural dos que aqui se instalavam.Tropeiros vindos de Mato Grosso e do Sul do país, muitos deles aqui chegavam para ficar. Na segunda metade do século 20, a imigração nordestina foi notável, como também a chegada massiva da gente do Sul de Minas. Baianos, cearenses, pernambucanos, paraibanos,mineiros, um mosaico de novos piracicabanos formou a nossa realidade social.

Somos, os piracicabanos, na realidade, o somatório de muitas culturas que se agregaram ao nosso estilo de vida, a isso que chamamos de piracicabanismo, sentimento de uma cidade original que viveu e sobreviveu como um nicho especial e, por assim dizer, auto-sustentável. Agora, com a chegada de coreanos, começam a surgir, aqui e ali, preocupações ao que muitos já chamam de “invasão coreana”. Não creio nisso, nem vejo motivos para preocupações. A cultura dominante abarca a cultura adventícia. O mais amplo abrange o menor. O contrário disso é o conflito.

Se preocupação realmente existe, essa deve estar, penso eu, em relação a um grupo piracicabano de poder, não nos coreanos propriamente ditos. Pois há uma diferença fundamental entre a atual e as anteriores imigrações. Estas foram de famílias estrangeiras que vieram em busca de novas oportunidades, na luta pela sobrevivência, luta de suor, trabalho, sangue e lágrimas. A instalação de indústrias coreanas tem um motivo específico: geopolítico, econômico e vantagens obtidas. Eles chegam com o poder econômico. Vai daí, o risco de tentativa de impor hábitos, costumes, cultura que colidirão fatalmente com a Piracicaba já consolidada.

A dificuldade, porém, não está nos coreanos. Está em piracicabanos que os cortejam para usufruir proveitos. Numa economia de mercado, tudo é vendável. Há grupos que possam estar, em busca de lucro, tentando vender Piracicaba, nossa história, nossa cultura a empresas multinacionais que, na verdade, vivem de uma realidade triste mas verdadeira: o capital não tem pátria. Nós somos os problemas. Não os coreanos que – se tiverem humildade para se deixarem absorver, e não a arrogância de imperar – são bem-vindos.

A grande e sábia lição de convivência nos vem, ainda, da Antiguidade. Aos estrangeiros, ensinava-se: “Em Roma, como os romanos.”Vale para hoje e para nós:”Em Piracicaba, como os piracicabanos.” É simples e é só. Bom dia.

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