“Plano de Deus”

Plano de DeusAdmiro pessoas com e de fé. Na verdade, perturbo-me diante da fé cristã de dois milênios. E impressiono-me com a fidelidade de comunidades cristãs tradicionais, seculares e milenares. Mais do que fé, há lealdade nessa luta que, ao mesmo tempo, é busca e encontro. Em não sendo de todo ignorante, essa fé me instiga. Não a tenho, ainda que, tanto e tanto, deseje tê-la. Há, na fé, uma cegueira total, a crença no que não se entende.

Essa fé me impressiona. Pois não sou de todo ignorante. E, em não o sendo, preciso admitir algumas coisas que vi, estudei, avaliei, algumas às quais me rendi. Por exemplo: essa milenar Igreja Católica – que avança para o seu terceiro milênio – preciso confessar que me fascina. É uma tentação que me faz meditar e refletir em relação a absurdos que se espalham por todos os cantos, seitas que parecem casas comerciais com franquias, situações que configuram facilmente o charlatanismo, a exploração da boa fé dos simples, verdadeiros e deslavados curandeirismos.

Lembro-me de, antes de surgirem essas igrejas pentecostais – e antes desse inteligente soi-disant bispo Macedo, dono de tantas rádios e emissoras de tevê – lembro-me da cantoria de “Nhô Serra”, de sua sabedoria e profetismo. Não gosto de pensar nas coisas que vi “Nhô Serra” fazer, como se ele tivesse, realmente, o dom da profecia. Ele lia mãos e dava medo ouvir o que revelava. Certa feita, um jovem frade capuchinho desafiou Nhô Serra a ler-lhe as mãos e aconteceu o constrangimento. Depois de examinar a mão do frade, nosso notável cururueiro ficou em silêncio. E o frade o desafiava a dizer o que vira. Nhô Serra perguntou: “O senhor quer mesmo que eu fale?” O frade como que o exigiu e Nhô Serra apenas respondeu: “Tem uma loura na sua vida…” O religioso enrubesceu de imediato, ele que era tido como um promissor sacerdote, grande orador sacro. E aconteceu que, cerca de um mês depois, o jovem frade desapareceu da cidade. Com uma loura.

Há, portanto, “entre o céu e a terra, muito mais do que supõe a nossa vã filosofia”, lá me vou socorrendo-me de Shakespeare. E isso me reporta ao que, ainda outra vez, ouvi de um religioso em sua pregação a multidões pela tevê: ele falava do “plano de Deus”. Aí, para mim, a porca entorta o rabo. Pois se tal plano realmente existe, apenas o próprio Deus pode conhecê-lo, já que é impossível, à razão humana, acreditar que Deus tenha algo a ver com tantas tragédias, misérias, infâmias, violências, desgraças e barbáries humanas. A que parte do “plano de Deus” estaria essa mãe que matou seus oito bebezinhos, enterrando-os mal lhes cortou o umbigo, na Inglaterra? Se, nesse quadro de hediondez e de monstruosidades humanas, houver um “plano de Deus”, haverá que ser, pelo menos diante de qualquer tribunal de justiça, um plano criminoso, sádico, algo que cheiraria a terrorismo.

Por esse plano, o diabo está solto no humano e anda vencendo. E é isso que faz prosperarem e multiplicarem-se seitas oportunistas que chantageiam as pobres almas humanas indefesas e incapazes de compreender a grande tragédia que, na verdade, é o próprio ser humano na história da criação. Minha admiração pela Igreja Católica está em sua engenharia cultural, psicológica. Com seus sacramentos e mandamentos, com sua sabedoria milenar, ela tem respostas para tudo, tem a cura da confissão e da eucaristia, tem o consolo da unção dos enfermos, a ordem social do matrimônio e da ordem, a iniciação pelo batismo e a transição pelo crisma. É uma engenharia perfeita. Mas que também não consegue resolver nada diante da cada vez mais animalesca condição humana.

O “plano de Deus” estava concluído, pronto e acabado antes de ter surgido o homem. Daí, começou o estrago. Diante de um Hitler, nem um Bach compensa o mal cometido. Bom dia.

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