Pois é…

PreguiçaEntão, tomado por pensamentos antigos, vi-me perguntando-me: cadê colombina, cadê lança-perfume, cadê a moça linda, loura de olhos verdes, cadê pecados escondidos? Com tudo escancarado, sem restrições e sem limites, as coisas ficaram chatas. O mundo tornou-se chato. E Carnaval, pior ainda.

O lugar, agora, é um sítio, onde fora fazenda de café. Mas árvores há que deveriam ser as mesmas, centenárias, mais do que isso. Domingo, segunda-feira de Carnaval, cadê confete e serpentina, o código malicioso de espirrar perfume nas pernas da moçada desejada? Naquele silêncio de paz e de serenidade, cadê Carnaval? E, então, dei-me conta de que também o meu tempo era outro e que eu não suportaria estar sequer por um instante em desfiles de escolas de samba, ouvindo batuques e trios elétricos, no meio de multidões alucinadas. Dois milhões e meio de pessoas sambando, batucando, suando, gritando?

Mais ao longe, via-se o regato, águas ainda barrentas de dias chuvosos, como se não mais houvesse areais em Mombuca. A moça da limpeza avisou uma das donas do paraíso que havia centenas de libélulas voando, para alegria dos passarinhos que, famintos, as perseguiam. Olhei, vi algumas delas e pequeninos pássaros em vôos rasantes. Os moços, dois universitários, espreguiçavam-se na varanda, conversando coisas de faculdade. Os cãezinhos vira-latas – eram quatro – corriam de lá para cá, provocando as pessoas, chamando a atenção para serem enxotados. Uma das mulheres apareceu com a bandeja de café, outra rodada de café com bolachas. E falou de bolos, de um de cenoura e chocolate que estava no forno. Um dos homens pediu mais cervejinha. Era antes do meio da tarde, pouco mais além do almoço. Mas a preguiça persistia, sonolência de nada fazer, da mansidão do lugar, do silêncio apenas interrompido por algumas vozes pausadas, por brisas em folhagens e nas árvores, trinados de passarinhos.

Era a minha vez de embaralhar as cartas, a revanche no jogo do buraco. Estenderam-me a xícara de café, a luz do sol era coada pelas folhas e iluminava a sala antiga, o velho piano, a mesa que fora da pintora famosa, a lareira desativada. Um dos moços tomou do violão e, como brincadeira, a mãe perguntou se sabia acompanhar o “Chico Mineiro”. O garoto pediu para ela cantarolar. O acompanhamento começou a sair. E, então, com plangência e lentidão as duas irmãs começaram a cantar. Pedi que parassem: “Eu choro, tenho dó dele.” – falei. Ninguém se importou e, ao final, aconteceu o que eu já sabia: o Chico Mineiro foi baleado e o amigo dele, então, veio a saber que ele era seu legítimo irmão.

Depois, o piano, a quatro mãos. Um pouquinho de Schubert, outro tiquinho de Bach, a valsinha, a modinha. Não podia ser Carnaval. Nenhum som de tamborim, nenhum barulho ensurdecedor, ninguém urrando, ululando. O bolo de cenoura e chocolate foi servido. Com mais café. E, na mesa do jogo de buraco, também a cervejinha. Pela janela, numa encosta, algumas vaquinhas preguiçosas. Murmurei, sem o perceber: “Segunda feira de Carnaval e eu aqui, jogando buraco…” Ninguém entendeu. Desviei o assunto. Os rapazes resolveram andar ao longo da estrada, por trilhas, sob árvores. O sol estava menos hostil e a passarinhada já se ia recolhendo. Era hora de fechar janelas, tentando impedir os morcegos que petiscavam árvores frutíferas. A filha do caseiro riu-se: “Não adianta. Eles têm ninho no forro.” Vi paredes antigas, forros antigos, o casarão mais do que centenário.

Fiz a canastra decisiva, minha dupla venceu o jogo. “Queremos a negra” – reclamaram. Minha mulher concordou, sem pressa: “Amanhã, jogamos de novo. Afinal de contas, é terça feira de Carnaval…” E um sentimento esquisito, estranho, sei lá se nostálgico ou se revelador me assaltou: cadê Carnaval, cadê colombina, cadê a moça linda de olhos verdes. Concordei: “É isso mesmo. Voltamos a jogar amanhã. Realmente, é apenas terça-feira de Carnaval.” Pois é. E bom dia.

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