Políticos e o “burro de La Fontaine”

O Velho, o Menino e o Burro - La FontaineHá cerca de 25 anos, havia, na Prefeitura de Piracicaba, tanto atrevimento, tantos abusos e desgovernos, que quase todos eles – incluindo vereadores – se julgavam senhores de e com poderes ilimitados. O mais soberbo e pretensioso era um advogado mediano que a partilha do poder conduzira à Procuradoria Geral do Município. Por ser Procurador, ele se julgava acima da lei, do direito e de sua responsabilidade. Foi quando lhe escrevi, pedindo que se lembrasse do “Burro de La Fontaine”.

Quase três décadas depois, tudo se repete, agora com mais petulância e desfeita ao povo, como se o político, o homem público fossem vestais intocáveis, com poderes e direitos acima da reles humanidade. Para estes, é como se a “cosanostra”, o corporativismo, os interesses pessoais, o uso do poder sem limites fossem direitos adquiridos. Eles se consideram, na realidade, inimputáveis, com liberdade, pois, para cometer todo e qualquer delito político-administrativo. Chamam-se, a si mesmos, de autoridades, esquecidos que a autoridade é inerente ao cargo, não à pessoa. E que ela exige respeito e decência, para o homem ser digno da autoridade que lhe é conferida pelo povo. Eles não são autoridades nenhumas, mas podem tê-la ou exercê-las desde que sejam dignos dela. Exemplo claro disso é o deputado preso que, mesmo na prisão, continua com o mandato. Que autoridade ele é, qual autoridade lhe é, agora, conferida? Bandidos, crápulas, aproveitadores não podem exercer a autoridade, pois lhe falta o fundamental: a autoridade moral.

Piracicaba assiste, nos últimos anos – com uma passividade alarmante – à tirania da mediocridade, na qual o poder não é mais exercido em nome do povo ou a favor dele. Trata-se de exercer o poder político nas sombras, às escuras, numa verdadeira ação entre amigos tanto no Executivo como no Legislativo. (No Judiciário, não sei, que tal poder não faz parte de minhas observações.) “Suas Excelências” fazem o que bem entendem, de acordo com um cronograma que lhes interessa e beneficia, como se não existisse povo ou se  este servisse, apenas, para ser manipulado em vésperas de eleições. Infelizmente, a grande maioria do povo – como se prova pelas eleições – se deixa manipular ou aceita ser cúmplice para ganhar um prato de ervilhas.

A arrogância, a petulância, a prepotência, a ignorância dos limites e responsabilidades dos cargos  – essa lamentável rede de pequenezes me faz, novamente, lembrar do “Burro de La Fontaine”. E peço, ao eventual leitor, para recorrer à sabedoria do imortal fabulista.  Ele contou que, no reino, havia um burro. Era apenas um burro. Ninguém lhe dava importância, quase todos o ignoravam, nem mesmo nome o burro tinha. Certa vez, o rei resolveu que o burro iria carregar, no lombo, os tesouros do reino. E lá se foi o burro todo coberto de ouro, de prata, de jóias. O povo se encantou, querendo tirar proveito dos tesouros. E o burro se tornou todo orgulhoso, vaidoso, certo de que a admiração era para ele próprio, o burro, e não para o tesouro que ele carregava.

Chegou um dia, porém, que a carga preciosa lhe foi tirada do lombo, pois sua caminhada terminara. E o burro voltou a ser apenas o que ele sempre fora, um burro. E ninguém mais lhe deu importância. Políticos, quase todos, deveriam refletir sobre isso. A autoridade que pensam ter está no cargo que ocupam, desde que sejam dignos dele. Quando mandatos acabarem, eles – como o “Burro de La Fontaine” – voltarão a ser o que eram e sempre foram. Só que mais desprezados Bom dia.

1 comentário

  1. Luiz Fernando Miquilini Ferraz de Arruda em 20/11/2013 às 01:34

    Moderar o homem em suas ações, que se encontra descontrolada e sem parâmetro.
    É o que vemos hoje na sociedade, uma mudança de valores de tradições que atinge diretamente no modo de pensar e agir.
    Esses desprezados acabam virando um drama satírico – como em “As Bacantes”, tragédia onde Eurípides estuda as limitações da razão humana, avessa aos mistérios que transcendem o mundo material.
    Depois viram tragédias mais amargas como em “Medéia” e “Hipólito”.

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