Porque a Unimep dói

picture (9)Essa gente que se apossou da Unimep em nome de uma desfigurada facção da Igreja Metodista não sabe, na verdade, o mal que se fez a Piracicaba. Pelo menos a uma Piracicaba digna e consciente, não a essa também desfigurada outra Piracicaba de oportunistas e pragmáticos. Piracicaba é terra, ainda, de idealistas, uma herança que nos ficou de gerações de homens e mulheres extraordinários, imensamente maiores do que a mediocridade que sobrou. É como se, também para as cidades, valesse a sabedoria do dito popular: “Pai rico, filho nobre, neto pobre.” Piracicaba está empobrecendo-se em dignidade.

Ora, a Unimep foi a realização de décadas de um grande sonho, não me cansarei de escrever sobre isso, mesmo me sentindo um dos últimos cães de guarda ladrando e latindo contra assaltantes que se vão revelando profissionais na destruição de valores. Foram décadas, sonhando. “Cidade das Escolas, O Ateneu, Atenas Paulista, Florença Brasileira, Pérola dos Paulistas”, também a “Noiva da Colina” – essa era Piracicaba, que sonhou e sonhou, sonhos ainda mais altos. Desde o início do século passado, o sonho latejava: ter sua universidade própria, a universidade piracicabana. E por que não?

Piracicaba fez-se ainda mais audaciosa e pioneira, criando, em 1910, a Universidade Popular, que funcionou onde está, na Rua Governador, a quase desativada sede do “Cristóvão Colombo”, outro marco de pioneirismo. . E figuras ímpares – como Antoninho Pinto, Sebastião Nogueira de Lima, Dario Brasil, depois Leo Vaz, Sud Mennucci, Thales de Andrade – justificavam o porquê de termos sido a “Florença Brasileira”, como que produzindo um renascimento próprio, a nossa Renascença. Foi assim. Pois não terá sido por simples coincidência que o Orfeão de Fabiano Lozano empolgava o Brasil, e a Orquestra Sinfônica – com Belmácio Godinho, Benedito Dutra Teixeira, Erotides De Campos, Honorato Faustino e tantos outros – celebrava a comunhão da cultura com a música, a eucaristia da arte.

Foi um sonho real, vivido de olhos abertos. E, sendo “a Florença Brasileira”, Piracicaba arquitetou, renascida, ser uma Bolonha, a “Douta Bolonha”, da cultura universalista. Por que não? Diante do Brasil, Piracicaba poderia sonhar pois tinha estrutura e realizações: a ESALQ, o Colégio Piracicabano, o Assunção, uma faculdade de Odontologia, uma de Direito, audácia no ensino rural. Por que não uma universidade piracicabana? Por que não?

Reescrevo tudo, pois é insuportável assistir à destruição passivamente, vendo lideranças silenciosas e coniventes com o atentado contra a obra de gerações. Pois foi, na verdade, o sonho de muitas gerações. Quando Luciano Guidotti criou a Faculdade Municipal de Ensino, estava subjacente o sonho de uma futura universidade. Logo em seguida, os deputados Aldrovandi e Salgot Castillon apresentaram projetos à Assembléia Legislativa, um novo atrevimento: a criação, antes da Unicamp, da “Universidade Luiz de Queiroz”, a partir da ESALQ. Sonhos e sonhos. Utopia para alguns.

Nos anos 1960, um louco surgiu em Piracicaba e resolveu instalar cursos superiores no Colégio Piracicabano. Seu nome: Chrysanto César, diretor geral da instituição. E criou. Foi a ECA, semente do quê? Semente daquele mesmo sonho: o de uma universidade piracicabana. E, quase ao mesmo tempo, o Bispo Diocesano, D.Aníger Melilo – que criara a Faculdade de Serviço Social – acelerou a caminhada e propôs que, aqui, se instalasse um campus da PUC/Campinas. Era, ainda, o sonho da universidade piracicabana. Que movimentou todas as almas, incluindo as religiosas, católicas e metodistas.

O sonho tornou-se real. A alma metodista criou a universidade. De Piracicaba. A semente plantada pela santa loucura de Chrysanto César foi regada, adubada e tornada colheita por Elias Boaventura, Richard Senn, Almir de Souza Maia, Gustavo Alvim. Tornou-se um orgulho nacional. E para quem acredita em sinais – e eu acredito – há mais do que coincidência: em 1964, o primeiro diretor da ECA chamava-se Gustavo Alvim. E foi ele também o último reitor da universidade sonhada, desejada, construída. Pois o que sobrou são ruínas e esse grosseiro Davi Barros é feitor de demolições. Não posso respeitar um homem que aceita destruir templos, monumentos, lugares sagrados. Se houver um pingo de alma nesse homem, ela será corroída por remorsos. Mas parece não mais haver. universidade.

A destruição da Unimep dói na carne e no espírito de quem não perdeu o caráter e de quem ainda se orgulha de uma “Florença Brasileira”. E dizer que o prefeito de Piracicaba foi o primeiro presidente da associação dos docentes daquela universidade. E que o presidente da Câmara de Vereadores foi fundador do sindicato dos funcionários. E que o atual diretor geral do IEP, brincando ser reitor, mamou nos úberes férteis da universidade cuja destruição ele comanda. Onde estão os nossos grandes homens e mulheres, onde estão? Bom dia.

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