Precisa-se de ingênuos

picture (25)O mundo se diz dos espertos e, como se sabe, esperto finge-se de bobo. Eis aí, talvez, a grande questão sobre a qual é preciso insistir: quando todos se fazem espertos, isso significa todos nos transformarmos em tolos. Um finge enganar o outro, o outro finge deixar-se enganar porque, fingindo, acredita estar, também, enganando o outro enganador.

Isso vem de longe. Lembro-me, há cerca de 45 anos, de um casamento a que assisti. Eram dias de tragédia. O presidente Kennedy acabara de ser assassinado, o mundo, coberto de crepe. E aquele casamento soava feito tragédia, pois muito conhecidos os personagens, nubentes como se dizia. Diante do juiz de paz, antes de assinar o compromisso, a noiva pediu aos convidados fossem testemunhas do que ia prometer. E disse: “Assino que me caso com ele, mas quero que todos sejam testemunhas: se ele me trair, no dia seguinte eu o traio também.”

Era, pois, uma farsa. Da qual todos participamos. A farsa dos noivos, a farsa da confiança, a do ritual, a farsa do compromisso. E aconteceu o que a noiva antecipara: traída por ele, logo em seguida o traiu. E a tragicomédia terminou onde havia começado. Fomos, naquele casamento, todos espertos: fingimos não ser verdade o que estava acontecendo, o noivo fingiu ser brincadeira o que a noiva dizia, a noiva fingiu ser verdade estar-se casando. Esperteza é fingimento. E, quando todos são espertos, somos todos fingidos. E, portanto, tolos. Uns dos outros.

Retomo esse tema ainda por causa do Senador Eduardo Suplicy, a quem tentaram ridicularizar num programa de televisão: “É um ingênuo.” Ora, o Senador Suplicy é um dos poucos homens públicos decentes deste país. E os espertos riem-se dele, alegando não estar preparado para a política brasileira por ser, como dizem eles, inocente e ingênuo. Ou seja: se não é para ingênuos, a política é para espertos; se não para pessoas decentes, é para os indecentes. O que se entende, afinal, por política, hoje? Quem deve exercê-la?

Insisto: quando todos são espertos, tornamo-nos todos tolos também. Logo, precisa-se de ingênuos. É bom e auspicioso, é alvissareiro dizer-se que Eduardo Suplicy é ingênuo por querer se investiguem corruptos e corruptores. Pois o ingênuo é bem-aventurado, tal qual o inocente. E me lembro de alguém ter definido o inocente – acho que Leonardo Boff – como aquele da in-ciência, ainda não tocado pelo conhecimento da razão e, sim, do coração. O ingênuo tem muito dessa in-ciência : o que nasce livre, o que está livre, o nobre, o que tem a naturalidade, o inato, com a formosura da legitimidade, modéstia e virtude. Se Suplicy é ingênuo, bendito seja.

Estou cansado de gente esperta. Há espertos demais na política brasileira, de Brasília a Piracicaba. Há espertos também na imprensa, muitos que preferem criticar escândalos de Brasília e até de Nova York, sem ver indecências políticas debaixo de seus narizes. Até nas brincadeiras, a esperteza se revela. Ainda hoje, quando se pergunta do toucinho – “cadê o toucinho daqui?” – os espertos têm a resposta adequada: “o gato comeu.” O rato, nunca.

Há, em Schiller, uma reflexão sobre ingenuidade que, originariamente voltada à arte, serve, penso eu, para o cotidiano de todos nós: “O ingênuo é a representação da nossa infância perdida, que fica em nós como o que há de mais querido e, por isso, nos enche de certa tristeza e é, ao mesmo tempo, a representação da suprema perfeição do ideal, que suscita em nós sublime comoção.”

Chega de espertos. Precisa-se de ingênuos. Bom dia.

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