Predileção pelo sujo?

SujeiraHaverei, algum dia destes, de escrever sobre Gijo Furlani, um dos meus tipos inesquecíveis. Nestes tempos, vejo-me perguntando se foi verdade que Gijo existiu, se foi um sonho que inventamos, se tivemos, entre nós, um anjo que caiu do céu. Penso, hoje, nele por sentir-me intoxicado de sujeiras que vejo em quase todos os veículos eletrônicos de comunicação, por perceber que a violência se tornou lugar comum e que a insegurança pessoal, física e também psicológica vai minando crenças e forças das pessoas. Penso em Gijo por estar precisando de alguém com a serena ingenuidade dele, que se transformava em sabedoria do cotidiano.

Já contei do dia memorável em que, pela primeira vez, o homem pisou na Lua. Era um dia histórico e, em O Diário, abrimos a manchete orgulhosa mas também assustada: “O homem chegou à Lua.” Gijo entrou furioso na redação, gritando, apontando-me o dedo: “Você é um mentiroso. Só Deus pode tocar a Lua.” Gijo morreu, alguns anos depois, não acreditando naquilo que, para mim também, era uma conquista humana, ainda que hoje eu tenha dúvidas a respeito disso. Será que iremos corromper também a Lua? Será que levaremos para lá nossas tantas misérias e infâmias?

O fato é que não conheço mais quem suporte tanta sujeira que nos atinge de todos os lados e da qual os meios de comunicação eletrônicos se tornaram porta-vozes infatigáveis. Por que acreditar que haja, no povo, predileção pela sujeira e não pelo limpo, pelo belo, pelo generoso? A cada dia, a cada noite, ligar a televisão é esperar para saber quais as tragédias, quantas mortes, quais e quantos crimes, hediondezes sem fim, nessa loucura coletiva universal.

Crimes sexuais surgem como novidades, quando sempre existiram, praticados por esse patético ser humano que, há séculos, vem sendo insistentemente violado em sua natureza. Sexualmente, o humano é o único animal com essa capacidade doentia de se relacionar com todos e com tudo: com animais, com crianças, com cadáveres, com bonecas infladas, consigo mesmo, com pessoas do mesmo sexo, o dantesco da pedofilia, da zoofilia, da necrofilia. É uma sexualidade torturada, que alimenta taras, doenças, perversões, resultado também de séculos de repressão, de medos, de caracterização da sexualidade humana como “coisa suja”. Na verdade, tudo o que brota dos sentidos humanos foi transformado em “coisa suja”, a própria nudez humana se fez pecado, sujeira, obscenidade.

Continuamos com uma insistência doentia de caracterizar o homem como um Midas ao contrário, que transformaria em sujeira tudo o que toca, tudo o de que se cerca. Assim, não se poderá, jamais, pretender que a pessoa humana seja psicologicamente saudável, a menos que ela se liberte de todas as tiranias e maluquices morais que lhe matam a humanidade. Não se trata de devolver o homem às selvas, à sua condição de bicho. Mas de lhe devolver a beleza de sua humanidade, devolver-lhe a serenidade diante de seus desejos que, assimilados e apaziguados, se transformam em belezas de que até Deus sente inveja. Aliás, se Deus se fez homem, acho que foi para viver as delícias da sua invenção.

Gijo Furlani, o nosso amorável bobo da aldeia, nunca foi alcançado pela sujeira. Talvez – quem sabe? – porque ele se indignava quando ferido em suas verdades e sonhos. Ser bobo, começo a entender, é a mais preciosa bênção na vida de um homem. Ser tolo é outra coisa. Estamos insistindo em ser tolos. Bom dia.

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