Primavera e consagração

É Primavera. E não resisto à tentação de repetir-me também. Pois tudo se repete, num ciclo, num retorno eterno. Se e quando aprendermos a ver a vida ao ritmo das estações do ano, teremos dado início, então, a um início, a um poucochicho de sabedoria. Virgílio, o maior dos poetas latinos, deixou-nos o legado encantador de sua sensibilidade. Para ele, Primavera “é a flor da idade”. E, na sua origem latina – “primum ver” – é a “primeira idade”. Portanto, também um recomeço no círculo das coisas. O Inverno morre para a Primavera acontecer. Como na vida. E sábio será o idoso que, em seu Outono e Inverno, souber ter o espírito primaveril. Mas sem ridicularias dos que confundem primaveril com infantilidade.Pois, infelizmente, há idosos infantis, o que os leva a beirar a tolice.

Quase toda Primavera não consigo escapar ao título que me encanta: “Sagração da Primavera”. E não o empresto de Stravinsky, cuja sagração musical ainda me confunde. Penso em Alejandro Carpentier, o cubano, cujo livro “Sagração da Primavera” é um dos monumentos literários da América Latina e tão poucos o conhecem. Mais francês do que latino-americano, Alejandro Carpentier conseguiu, realmente, criar o realismo mágico com as palavras. Quando o descobri, aumentou-me ainda mais o doloroso encabulamento de escrever. Rasbicadores de frases deveriam calar-se diante dos grandes mestres. Carpentier é um deles. Não me calo pela razão simples de não conseguir parar, na penitência de levar, até o fim, o mediano uso das palavras.

Aliás, não me esqueço de uma noite em que um velho amigo me convidou a sair, para conversarmos em mesa de bar. Recusei-me justificando-me a necessidade de concluir alguns trabalhos, de escrever. Ele riu-se de mim: “E escrever é trabalhar?” Dei-lhe as costas, lembrando-me, também, de um lugar distante onde morei, povoado de gente humilde. Já escrevi sobre isso, mas me ficou marcado na memória. E na vida. Foi quando ouvi duas vizinhas conversando, lamentando-se de mim. Falavam: “A mulher dele sai cedinho para trabalhar e ele fica aí, dia e noite, lendo e escrevendo. Às vezes, amanhece e ele, sempre lendo e escrevendo. Como pode um homem não fazer nada?”

Quando chega a Primavera, Carpentier retorna-me à imaginação. E, então, a sua “Sagração da Primavera” instiga a vontade inquieta de sagrar e de consagrar. Na verdade, há que se fazê-lo, a cada ano. Agora, mais do que nunca. Quando a calmaria parece ter-se instalado, ventos novos surgem, varrem poeira de agora, deixam a descoberto crostas antigas. É, então, que soa a voz do poeta amigo: “Encontrar seu lugar no mundo.” Seria preciso discordar dele. Mas, quando se pensa ter encontrado, o lugar desaparece; se se acredita tê-lo perdido, está diante dos olhos.

Carpentier reapareceu. Confesso tê-lo aguardado. Pois não busco e nem mais anseio por explicações para a quase embriaguez diante dessa sacralidade cotidiana do profano. Pouco se me dá seja tão pouco compreendido o trabalho, a árdua faina de escrever. A palavra é uma das bruxarias humanas. É mágico poder abarcar tudo o que existe na forma escrita: mundo, vida, coisas, pessoas, sentimentos. Por mais rústico seja, por mais rude, o ser humano conseguirá – com algumas letras e com três únicas palavras – revelar o que sente e o que vive por sua família: “eu amo vocês.” O infinito grava-se em letras.

Vi meu jardineiro podando plantas, ele, o anfitrião e celebrante da Primavera. Preparava-me, em meu jardim, a sagração. E, novamente, flores e plantas, borboletas voando ao lado de beija-flores, esguichos d´água inventando arcos-íris. E o ipê florescendo. E os manacás. E o cheiro de terra molhada, terra no cio. E, novamente, como nas asas de uma abelha, o verbo “luscofuscar” reapareceu. Não existe nos dicionários, mas o lusco-fusco merece tornar-se verbo.

Pareço ouvir, novamente, o que o velho sábio sugeriu a Proust: “Trabalhar enquanto tem luz…” Era o que estávamos fazendo, o jardineiro, borboletas, abelhas, formigas, flores, a passarinhada, eu mesmo. Trabalhávamos na sagração da Primavera. E senti, ainda outra vez, ser uma consagração. Bom dia.

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