Primeira 6a. e é Carnaval

Quando me dei conta de ser a primeira sexta-feira do mês e véspera de Carnaval, sobressaltei-me. De repente, foi como se funduras dos tempos e das coisas se abrissem e forças terríveis me alcançassem. E eu não sabia quais forças, se interiores, se infernais, se dos céus. “Primeira sexta-feira do mês…” – o que significava mesmo?

Pensei nas mil sextas-feiras que perseguem a alma ocidental: sexta-feira da Paixão, sexta-feira 13, sexta-feira gorda, sexta-feira negra, sexta-feira santa – e a “primeira sexta-feira do mês”. De repente, vi um padre gordo, muito gordo, de batina preta, lenço enrolado no colarinho da para enxugar o suor, cheirando rapé, voz gutural, anunciando: “Foi prometido que Deus livrará do inferno a alma que comungar toda primeira sexta-feira do mês, durante nove meses seguidos.” E advertia: “Se falhar uma, terá que começar tudo outra vez.”

Ou seja: em apenas nove meses da vida, comungando na primeira festa feira de cada mês, sem falhar nenhuma, a salvação estava garantida. Podia-se, pois, pintar e bordar, pecar todos os pecados conhecidos e desconhecidos, nada disso importaria se as nove primeiras sextas-feiras fossem vividas na piedade, mesmo que passageira, da comunhão eucarística. E aquilo me fascinou. Pois achei prático, interessante e, acima de tudo, altamente conveniente. Em relação a custos e benefícios, a vantagem era excepcional. Mas que dava medo, lá isso dava.

Por isso, quando penso nessa “primeira sexta-feira do mês”– e praticamente já Carnaval – voltei a incomodar-me. A voz gorda, gutural, fantasmagórica do padre permanecia viva em mim, o terror sobrevivera e entendi: não fui merecedor daquela promessa de salvação. Pois nunca consegui comungar nove primeiras sextas-feiras, uma após a outra, contadinhas. Até tentei, lembro-me. Mas, em nossas vidas, já havia serestas, namoros, paixões incipientes, o Bar Giocondo, descobertas fascinantes das noites piracicabanas. Era preciso, pois, ser muito piedoso – ou ter muito medo do inferno – para manter-se em estado de graça, alma pura em cada primeira sexta feira do mês. Encrenquei-me.

No Colégio Dom Bosco, era quase compulsória a confissão. O padre aparecia à porta da classe, apontava o dedo: “Agora, vocês, desta fileira.” E, em fila, os adolescentes – com suas espinhas e cravos nos rostos imberbes – lá se iam enfrentar o padre confessor. Aquilo era tão terrificante que quem não se lembrava de pecado inventava algum. Lembro-me de um colega santo, santinho de verdade, que, trêmulo, nos perguntava: “Que pecado eu vou contar?” Quase sempre o orientávamos: “Fale que fez porcaria.” Era o que confessores gostavam de ouvir. Ou pareciam gostar, de tanto que perguntavam, incrível gente curiosa. Enquanto isso, íamos fumar na lanchonete do Santo Baron, figura humana inesquecível.

Vieram-me, tais lembranças, a galope, talvez por inquietações atuais. Antes, diante do horror, ensinava-se aos meninos: homem não tem medo. Pode ser hora de pensar-se nisso de maneira contrária: é preciso ter medo. Quando nada se teme, nada se respeita. Basta olharmos para o lado e ver: não se teme a lei, nem a justiça, não se teme a autoridade, não se temem cobranças. Não se teme nem mesmo a cólera dos deuses. E eles estão coléricos.

Ando com medo. Dessa corrupção toda, dessa perversão, dessa crueldade que produz metástase, medo de economistas, de governos, de partidos políticos, do aquecimento global, de sombras que se avistam próximas de nós. Lula disse, na última eleição, que a esperança vence o medo. Então, tá. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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