Privatizando o ar.

A farsa do politicamente correto e do pensamento único começa, cada vez mais, a ser desmascarada. Parece daqueles frutos que, parecendo saborosos quando nos galhos, perdem o sabor à medida que amadurecem e, enfim, apodrecem. O que há de mais importante para a selvageria da economia de mercado do que um Estado fraco, desregulado, sem organização jurídica que privilegia a justiça social? O que, para essa mesma selvagem economia, mais substancial do que a desordem, quando o poder vai, a pouco e pouco, acumulando-se pelas leis do materialismo? Ruem ou desejam que ruam ideologias; ruem ou desejam que ruam as instituições políticas. Para que, em seguida, apenas prevaleça o poder econômico. É o que está acontecendo até aqui, mas as reações se fazem sentir em todas as partes do mundo, como uma panela de milho de pipoca: na fervura, basta começar a espocar uma para, em seguida, espocarem todas as outras.

Há indícios cada vez mais claros de que estamos para sofrer mais uma violação aos direitos dos povos. Já se apoderaram dos espaços públicos, já se apoderaram de países inteiros, de mares, de rios, de ruas, de cidades e, agora, em nome da eficiência e da eficácia da privatização, já se fala em apoderarem-se da água. Ora, mais do que o petróleo, a água se tornou uma riqueza universal cada vez mais escassa, despertando apetites sem fim. Quem tiver o domínio sobre elas terá o domínio sobre todo o resto, pois água é vida. Portanto, o senhor dela será, também, senhor da vida e da morte.

O ciclo da economia do mercado está ameaçado. E economistas sérios e políticos hábeis sabem disso, em todo o mundo. No entanto, na periferia dos acontecimentos – em cidades provincianas, por exemplo, onde empresários dominam políticos, imprensa e silenciam a população – os apetites se aguçam, como se fosse um fim de baile, fim de festa, quando tudo deve ser aproveitado ao máximo. Há que se rapar o tacho até o fim.

A privatização do serviço de água e de esgoto é o golpe mortal na soberania e na autonomia de qualquer povo. A dependência do atendimento de água, controlado por particulares, é o mesmo que dar de presente o que uma cidade e um povo têm de mais preciosos: sua vontade, sua liberdade, sua independência. Isso irá acontecer, da mesma maneira como acontece a cessão de espaços públicos a particulares, a entrega de reservas ambientais a empresas poluidoras, na farsa argumentação de que haverá progresso. Ora, progresso é algo que apenas existe quando for determinado por um objetivo ético. E não se tem revelado nenhum valor ético no que é proposto ao se falar em cessões de direitos, em privatizações, em concessões.

Quando homens públicos e políticos falarem em privatização, há que ficar atento, pois boa coisa não é. Nem boa gente é. Não há boa gente quando se colocam interesses comerciais e financeiros em relação ao bem público. Falta agora, a privatização do ar. Irá, também, acontecer, se já não estiver ocorrendo. Pois, há algum tempo, procurando um lugar para repouso, fui informado de uma pousada retirada, num lugar distante. O preço era absurdo em relação aos de pousadas congêneres. O proprietário falou: “Mas, aqui, tem a vantagem de haver um ar especial, um ar particular. Eu não permito que poluam meu sítio. Eu cobro pelo ar.” Marx começa a remexer-se em seu pobre túmulo. Bom dia

Deixe um comentário