Prostituição vulgarizada

picture (16)Nos longínquos anos de minha juventude, as zonas de meretrício eram como que templos de iniciação para a vida. E, assim, prostitutas tornavam-se detentoras de segredos, como que deusas de uma revelação toda feita de mistérios e de ansiedades. Por isso, ainda hoje, acho estranhos esses movimentos sociais que tacham os homens de machistas, como se fôssemos senhores de todo o poder. Não é verdadeiro nem honesto. A dona do poder foi, para a minha geração, a mulher. Ela tinha o segredo da vida. Nenhum adolescente chegaria à maturidade se não “conhecesse” mulher.

Não sei se havia um sentido bíblico nisso. Mas era uma passagem fundamental, como que um ritual. Ouso dizer que, na zona de meretrício e na revelação de uma prostituta, havia um crisma. Tratava-se de um ritual, talvez de um sacramento. E as sacerdotisas, guardiãs de todo aquele mistério e íntima dos deuses, eram as prostitutas. O templo delas era a zona do meretrício.

De ouvir, não aprendi quase nada. Nem de ler, nem de estudar. Por mais banal possa parecer, o que permanece vivo em mim foi o que vivi. É um nada-saber sem fim, mas um maravilhamento de alma, um doloroso porém inebriante deslumbramento diante do nada que entendi ou compreendi, esse tudo, porém, que me fascina. Não se trata, entendam, de ceticismo. É esperança.

Certa vez, o Renato Gaúcho, ainda quando jogador de futebol, falou uma tolice memorável. Como um deus pagão e irresponsável, ele se vangloriou: “Eu já tive mil mulheres e nunca usei camisinha. A AIDS não penetra em quem é macho. Eu sou macho.” Foi quando me dei conta de que Renato Gaúcho, como milhões de homens de gerações posteriores à minha, nunca conheceu uma prostituta de verdade, a sacerdotisa de segredos. As últimas décadas banalizaram até a prostituição. E o mistério fez-se vulgar.

Minha geração foi privilegiada. Meninos conheciam mulher como sacerdotisa do grande segredo. Havia um crisma diante do amor e da vida.. Na prostituta da adolescência, no templo do bordel, ficávamos adultos. Com ternura, com magia. Até padrinhos havia naqueles tempos: um tio, um amigo do pai. O adolescente era preparado para a descoberta do segredo, como o fazem índios, como o fizeram civilizações imemoriais com seus meninos e meninas: um ritual da vida, a preparação, a confirmação.

As mais antigas civilizações, sábias diante do grande segredo, sempre ritualizaram a sexualidade de suas crianças. O amor nunca foi banal. Sexo e vida interligavam-se. E eram desafios, lutas, conquistas, dor e prazer. A vida é isso, convenhamos: na dor, o encontro do prazer. Os rituais de iniciação eram feitos de dores. As igrejas cristãs, com o Crisma, guardaram resquícios dessa sabedoria. Na Igreja Católica, o Bispo – chefe da tribo, o pajé talvez – dava um tapa no rosto do crismando, o adolescente, no simbolismo do desafio diante da dor. O povo judeu corta a criança na carne. A própria Maçonaria, em sua inspiração também milenar, fazia as suas iniciações com desafios e dores. No fundo de tudo, o objetivo é sempre o mesmo: para sonhar, é preciso ser forte.

Mas o segredo foi banalizado. Sexo tornou-se simples prazer de um momento, alívio de uma vesícula saturada. Nisso, não há mistério, mas vulgaridade. E mulheres – quando não são sacerdotisas do amor, quando não amam e não são amadas – choram por dentro, choram na alma. E, tragicamente, em silêncio. A solidão da simples sexualidade física dói, machuca, por mais anúncios se façam na televisão e nos cinemas. Nenhum homem é homem para mil mulheres. Na vida de um homem, sobram, depois da mãe, apenas duas: a primeira, que lhe desvendou os segredos da vida; a outra, que ele amou. Tragicamente, rimo-nos disso. Bom dia.

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