Quando tem cambiocó

picture (91)De quando em quando, lembro-me do cambiocó e me sinto idiota. Se tive a pretensão de registrar, anotar, pesquisar as mais belas jóias da língua portuguesa, nas delícias do refinado e requintado dialeto caipiracicabano – como me esqueci do “cambiocó”?

Tenho, por hábito, andar por aí, pelas cercanias. Descobri que não consigo ficar mais de 200 quilômetros longe de Piracicaba. Quando fico, entro em agonia. E tanta que, certa vez, eu estava em Torres, no Sul, vi aquele imenso céu estrelado, as torres de pedra, o mar em fúria, fiquei com medo e quase saí correndo. A impressão era de alguém virara o mapa do Brasil de ponta-cabeça e eu iria escorregar para o Uruguai ou Argentina. Voltei correndo.

Por isso, resolvi andar apenas por aí: Águas, São Pedro, Santa Bárbara, tenho ido mais vezes a Mombuca que, para mim, continua a mesma. Parece a Macondo do Garcia Marques: cem anos de solidão. Fico encantado. Converso com caipiras e capiaus, ouço velhas histórias, faço anotações. De quando em quando, dou uma escapadinha até Santa Bárbara, especialmente diante da ameaça de meus netos me invadirem a casa . Antes de o furacão chegar, sumo. Adoro netos. Mas por meia-hora. Vai daí, escapo até Santa Bárbara. Outro dia, comi um sanduíche de queijo, não tinha gengibirra, fiquei conversando. Saiu confusão na esquina, o velho barbarense, pitando cigarro de palha, me advertiu: “Não vá até lá, moço, que tem cambiocó.”

A palavra “cambiocó” atingiu-me como um raio, iluminação, algo parecido ao deslumbramento de Saulo, a queda do cavalo, meu caminho de Damasco: “Tem cambiocó!” Era tudo o que eu precisava ouvir, ainda que a minha terrível desolação, sensação de idiotia: como pude esquecer-me do “cambiocó”? Se eu me lembrasse antes, a vida ter-me-ia sido diferente. Sem prisões, processos, tantas brigas, confusões. Em vez de denunciar, bastaria dizer pura, cândida e docemente as palavras sagradas: “Tem cambiocó por aí.” Estava dito. E não dito.

Pois “cambiocó” é tudo e não é nada, a magia do dizer e do não-dizer, do dito e do não-dito. “Cambiocó” é aquilo que está acontecendo sem acontecer, o que foi sem ter sido; o que será sem estar declarado; o ido e o devir. “Cambiocó” é a falta de prova e, também, a prova provada. Um exemplo: essas coisas de comissão de inquérito na Câmara Federal, denúncias, busca de provas. Não precisaria nada disso. Bastaria dizer ou pensar ou filosofar ou refletir e, então, balbuciar: “Tem cambiocó.” E mais não haveria a dizer. Ninguém sabe o que é, mas também sabe. É como as bruxas: todos dizem não crer nelas, mas existem. Ou como alma do outro mundo, caipora, saci-pererê: ninguém acredita, mas todos têm medo. “Cambiocó” é o milagre do dialeto caipiracicabano, genialidade da raça caipira, jóia rara e inigualável da palavra humana. Como esquecer-me fui do “cambiocó”, se é tudo o que existe? “Cambiocó” é, também, definição do infinito: aquilo que não tem começo e não terá fim. Corrupção pode ser “cambiocó”, só para exemplificar.

Na minha andança de turista acidental em Santa Bárbara, aquele velho homem me devolveu a luz perdida. Pois eu tentava entender esse “je ne sais quoi” nebuloso das novas equipes na Câmara e na Prefeitura sem encontrar o fio da meada. Isso me angustiava. Agora, estou sereno. “Tem cambiocó” nessas articulações. Mais não precisa ser dito. Bom dia.

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