Quaresma, êxtase e estase

picture (57)Aconteceu-me num domingo à tarde, na solidão do homem recolhido. Após o almoço, dormi sono de preguiça. Ouvi o silêncio, que, para mim, tem som de brisa nas folhas, de pipilar isolado de passarinho. Aleatoriamente, coloquei o disco no aparelho de som. Era “Tannhäuser” de Wagner. Foi tal o impacto que caí de joelhos, vendo a luminosidade esplendorosa acima das copas das árvores, a luz que parecia cegar. Alguns dias depois, um velho professor explicou-me: “Foi o Inefável.”. E pensei no Nefando, o horror de vidas apenas materializadas.

Ora, todos ouvimos vozes, vemos coisas. Só não ouve e não vê os que enlouqueceram com cimento e asfalto nas almas, com ferro e cifras no coração. Loucos não são os que ouvem e vêem, mas os que ensurdeceram e se cegaram. Essas coisas, lá me vou eu ainda tentando escrevê-las para eu mesmo compreender essa minha quase conversão ao silêncio. Não se trata de mudez, mas, apenas, de recolhimento, o silêncio interior, o meu tempo de olhar e ver com os olhos da alma. Mais do que entender Fernando Pessoa, quero ser o seu guardador de rebanhos, crendo “no mundo como num malmequer.” E crer nele por vê-lo sem pensar, pois “pensar é não compreender”, na grande descoberta acho que final: “O mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) mas para olharmos para ele e estarmos de acordo”. Depois de Pessoa, quem há de?

Aquele que se permite o êxtase extasia-se. E, ao contrário, quem escolhe a estase fica estático. Extasiar-se, pois, é sair de si mesmo, permitir-se escapar de armaduras de carne e de regras. Estase é permanecer, ser e ficar estático, parado, paralisado, contido. O estático não sai do lugar. O homem extasiado alcança espaços nunca antes imaginados ou, então, apenas sonhados como sonhos impossíveis. No êxtase, não há impossibilidades.

Não há que buscar explicações, que isso é matar-se aos poucos. O encontro do êxtase é, para alguns, maldição e castigo. No entanto, é graça especial, a cortina que se abre permitindo vislumbrar o outro lado. Há um arrebatamento místico, sim, pois pensamento e inteligência parecem neutralizar-se por uma comunhão verdadeira com o desconhecido. Por isso, ouvem-se vozes. E vêem-se coisas. E entendem-se linguagens outras: de nuvens, de aves, de chuva, de grilos, de cocoricós de galos, linguagem do silêncio.

A alma, mesmo maravilhada, silencia. Então, se compreende a religiosidade do silêncio. A isso, enfim, minha inteligência se rendeu: é impossível, ao homem, não ser religioso. Pode-se duvidar se a palavra religião for entendida, apenas, no sentido de religare, o retorno do homem a Deus, religação entre céus e terra. Nesse sentido, não me sinto religioso. Mas há o religere, quando religião adquire o sentido e o significado de contemplação, de deslumbramento. Quem, de nós, não se deslumbra com o belo, não fica em estado de contemplação diante do milagre, da mirabilia, da maravilha? Onde isso estiver, aí estará Deus.

Inefável e Êxtase pertencem aos olhos da alma. Fora do êxtase, há a estase. E esta é triste. Na Quaresma que chega, eis nossa grande oportunidade. Bom dia.

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