Quem pega quem, o quê, como, quando e onde

picture (34)Em Piracicaba, alguém sempre pega alguém. Ou algo. A questão é saber quem pega quem, quem pega o que, onde, quando e como. Às vezes, também o porquê. É tal a riqueza desse nosso ainda não saboreado, digamos, dialeto caipiracicabano que, após tantos anos, ainda me espanto. É pena que muitos não levem a sério tal e tão precioso valor de nossa identidade.

De minha parte, penso ter feito além do que pretendi, iniciando por quase brincadeiras na antiga “A Província”, terminando com livros que leitores e a população – enviando sugestões, lembrando-se de palavras, garimpando-as também – foram enriquecendo a cada edição. Elas, as palavras – pronunciadas à nossa maneira – estão soltas no ar. Escapam da boca de um povo que ainda as pronuncia com doçura singular. Basta ficar atento, ouvir. Há jorros de expressões, de frases, de uma forma toda peculiar de pronunciá-las. Piracicaba tem uma identidade a partir desse nosso modo de dizer as coisas, como que um dialeto. É um dialeto, esse nosso, caipira. Amadeu Amaral, no início do século passado, assim já o definira.

Será o fim de uma história, tenho certeza disso, se Piracicaba permitir perca-se esse tesouro. É inesgotável. Confesso ter tentado fugir dele, como se as pepitas fossem tantas e tantas que o garimpo delas se banalizasse. E não é assim. De repente, ouve-se uma frase, uma apenas e, então, percebe-se haver riquezas à espera. Não resisto ao verbo pegar, por exemplo. Ora, a princípio, não me dei conta, ao recolher palavras e expressões, da força determinante do verbo pegar em nossa fala cotidiana. Estamos pegando sempre. Como se não soubéssemos viver sem pegar. E isso tem significados especialíssimos. Mas que eu não saberia identificar.

Percebi-o, de repente, quando um amigo pediu para usar o telefone. Eu estava lendo, há alguns metros. Era impossível não ouvi-lo. Aos gritos, ele dizia para a mulher: “Tudo bem. Eu pego, passo aí, pego você, a gente sai, daí a gente pega uns vídeos, fica em casa, depois a gente pega e vai tomar um lanche por aí”.

Ele desligou o telefone, olhou-me, não se deu conta de como se expressara. Aproveitei, falei, como que buscando a trilha: “ Façamos diferente. Eu pego, chamo minha mulher, daí você pega, chama a sua e, então, a gente pega e vai comer lambari na rua Porto. Depois, você pega e vai embora e eu pego e volto para minha casa…”

Acabamos não indo. E eu poderia dizer que não fomos porque ele pegou um resfriado e eu peguei uma gripe desgraçada. Ou que, irritado, meu amigo deu um pega na filharada que fazia barulho. Mas isso seria normal, pois todo mundo pega: a mulher pega a criança na escola, o marido pega duro na fábrica. A moçada gosta de pegar mulher nas esquinas. E tem mulher que sai por aí para pegar homem. E outros que ficam esperando para pegar um táxi e alguns que saem para pegar um cinema. E se o cachorrinho escapa de casa, alguém o pega e grita: “está pego”. Outros pegam um baile, pegam um “rock”, pegam um som. Pegar é preciso.

A polícia pega em flagrante, qualquer um pega fio de conversa. Pega-se no pé de alguém, pega-se na mão da namorada. Tem dia que a televisão pega, tem dia que não pega. E, em manhã de frio, ora o motor do carro pega, ora não pega. Quando pega, o motorista pega e vai embora porque, enfim, o carro pegou. Tem gente que pega informação na tevê. E mais: pega-se o trem, pega-se o avião, pega-se o ônibus, da mesma forma como se pegava o bonde.

Mas, agora, eu pego e paro por aqui. Escrevo à noite, já se faz tarde, cansei-me e, então, pego e vou dormir. Bom dia.

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