Quem vê cara vê coração

picture (100)Costumamos, quase sempre, avaliar pelas aparências. E há muito de verdade nisso. Pois as pessoas, quando aparecem, parecem como aparecem. Mas parecer e aparecer não determinam o ser. Há alguém por trás das aparências e mesmo naquilo que apenas parece. Ora, tenho, para mim, que ditados populares são fontes de sabedoria. Quase nunca falham. Fico, porém, confuso com alguns deles. Por exemplo: quando se diz que “as aparências enganam” é como se, também, se dissesse que “quem vê cara não vê coração”. Será?

Lembro-me de quando, há alguns anos, estudantes da Unicamp manifestaram-se agressivamente contra o filósofo Roberto Romano. Trataram-no como a um brutamontes. Tudo porque Romano se opusera, com veemência, aos abusos de bebida no campus universitário. A virulência dos jovens alimentara-se, ainda mais, pela imagem de severidade e de mau-humor que acompanha o filósofo. No entanto, quem o conhece pessoalmente sabe tratar-se de um cavalheiro, um gentil-homem, sereno e cordial.

A questão está, em meu entender, na cultura de mistificação e de máscaras a que fomos obrigados, de forma milenar pelas religiões e mais do que secular pela cultura cartesiana. Somos treinados a não revelar emoções. Logo, inventam-se máscaras, mesmo porque civilização são máscaras. Assim, desde crianças impomos que um homem verdadeiro não se revela em seu exterior. Nem se mostra no próprio rosto. Mas ninguém disfarça os olhos. O coração das pessoas está na cara, sim. Bem nos olhos. Logo, quem vê olhos, vê coração.

Não há, talvez, quem não tenha a sua experiência pessoal em relação a imagens, tanto as que fazem de nós como as que fazemos dos outros. Lembro-me de minha surpresa ao conhecer o atual deputado Delfim Neto, àquela época todo poderoso ministro de governos militares brasileiros. Delfim era “persona non grata” a quase toda a intelectualidade de esquerda e a grande parte da imprensa. Ele como que simbolizava todo um regime que se pretendia derrubar. Conheci-o àquela época. E envergonhei-me de minha avaliação, daquele congelamento de opinião, da “part pris”. Deparei-me com uma personalidade sedutora, homem refinado, de cultura aprimorada, amante das artes, esgrimista de ironias finas. E continua assim.

Quem conhece malandro que não seja maneiroso e gentil? E não é milenar o beijo da traição? O velho Rípoli tinha uma sabedoria de viver que nos serviu a muitos de nós. Nem sempre ele usou a própria teoria na prática. Mas deixou lições. Certa vez, um jovem político desmanchava-se em mesuras, em gentilezas, em educação refinada, em doçuras sedutoras. Quando ele saiu, Rípoli balbuciou e, chupando o cigarro de palha, ensinou-nos: “Atrás de todo bonzinho tem sempre um grande fdp…”

O tempo deu-lhe razão. Ele vira a cara e vira o coração. Bom dia.

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