Reflexões de Natal – 2 (José)

picture (5)Nessa mais bela história do mundo ocidental, o surgimento de um deus encarnado é o mysterium tremendum tão poderoso como a morte e ressurreição dele mesmo. A razão humana é insuficiente para entendê-lo e, por isso, a fé cristã aceitou e venera o acontecimento de origem divina: por graça do Espírito de Deus, a menina Maria é fecundada e gera o Filho de Deus. É a equação impossível de ser entendida pela razão humana: como pode, o humano, gerar o divino?

Essa história não seria possível se, nela, não existisse a figura de José, o pai adotivo, a figura humana paterna, a quem Maria fôra prometida. Era preciso José, da Casa de Davi, para a profecia confirmar-se. E é a humanidade de José, na simplicidade até mesmo pasmante de sua confiança, que avulta nessa história como lição muitas e muitas vezes esquecida. E se José não tivesse acreditado na honestidade de Maria? E se José ficasse surdo às palavras do Anjo que lhe apareceu em sonho? Que outro homem, se José não aceitasse, poderia substituí-lo para dar, ao menino, a figura do pai, a estrutura de família?

José, nessa mais bela história do Ocidente, é chamado de O Justo. No entanto, é a sua profunda fé que lhe dá a dimensão humana. Talvez – como saber? – José não tivesse avaliado a questão de justiça em relação a Maria, de ser ou não justo em sua avaliação. Mas o que demonstrou foi a fé inabalável no milagre ocorrido e previsto pelos profetas. Ele, da Casa de Davi, era o escolhido para ser o pai humano do Menino-Deus.

Essa história, além de divina e do mistério fabular e mitológico que a envolve, carrega lições admiráveis de sabedoria, lições de vida e convivência que se tornam atemporais, válidas para todas as épocas. Ora, a chamada Sagrada Família não se repete, é fora dos padrões e, por isso, não pode ser modelo humano para nenhuma outra. Marido e mulher amam-se, unem-se por uma vida sexual que gera filhos, com falhas e virtudes também admiráveis, mas sem destinos grandiosos, incluindo o de martírio, previstos por profetas. Famílias humanas têm auras de santidade mas, também ou especialmente, são pecadoras. A Sagrada Família é a mágica exceção. No entanto, se não serve como modelo humano, deveria servir-nos – a nós, ocidentais, produtos dessa história – como um referencial de dignidade, de compreensão, de confiança, de cumplicidade pelo menos entre marido e mulher. José, na magnífica história, é esse testemunho de cumplicidade, de confiança, de generosidade. Ele acreditou no sagrado e na mulher como instrumento do mysterium profundum.

Em tempos duros, rudes, pragmáticos, materialistas essa história parece extemporânea, fora de contexto. Mas é a história que move o Ocidente, esse Ocidente que se perde e se descontrola exatamente por ter-se desviado de suas crenças fundantes. Numa época amarga onde se fala apenas de vantagens e de proveitos, de egoísmos e individualismos, José é figura fácil de ser alvo de chacotas. Mas, sem ele, essa história não teria existido. O homem do Ocidente precisaria ter, em si, mais de José e menos de Herodes, quem sabe? Bom dia.

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