Reflexões de Natal – 3 (O parto)

picture (4)Nessa mais bela história do mundo ocidental, os significados e os significantes compõem um modelo de vida que, apesar de sua complexidade, é atemporal. Mito é a representação da vida, a história contada de maneira fantástica, a dramaturgia social de povos e de um tempo. A história de Jesus, sua origem divina, a concepção da Virgem, a Sagrada Família são a mitologia transformada em fé do Ocidente. E a existência dos mitos não apenas justifica a rememoração da história contada: exige a repetição dela.

Há equívocos em relação ao mito, surgidos desde quando o judeu-cristianismo empurrou para o terreno da ilusão ou da falsidade tudo o que não fosse justificado por um dos dois Testamentos. Não se trata, porém, de se buscar a verdade ou a mentira, mas de absorver e compreender os simbolismos e as metáforas da vida humana através dos tempos. E ninguém, talvez, como Mircea Elíade e Joseph Campbell tão bem nos deixaram entendimentos vivos da importância dessas histórias universais. E, em especial, para o Ocidente, dessa nossa mais bela história humana cristã.

Ficamos, assim, divididos entre acreditar que as metáforas de nossas tradições religiosas são fatos ou que são mentiras. E, com isso, uns se falam ateus, alegando não acreditar em mentiras; e outros são visto como religiosos por acreditarem em ilusões. E não é nada disso. Campbell dá um exemplo interessante quando pede, a um interlocutor, lhe dar um exemplo de uma metáfora. O jovem lhe deu um: “Tenho um amigo que é muito veloz. Logo, ele corre como um cervo.” Campbell discordou do exemplo: “Isso não é metáfora. A metáfora seria: ele é um cervo.” O rapaz insistiu: “Isso é mentira.” Mas era a metáfora real. Portanto, o mito não é mentira, mas metáfora. Que se torna realidade para os que nele acreditam.

A história do nascimento de Jesus é de uma simbologia comovedora e misteriosa. A mocinha que concebe estando e sendo virgem; a estrela que indica o lugar do nascimento; o parto de Maria na estrebaria, ao lado de animais, tendo José como parteiro, recebendo a visita simples dos pastores… Maria, concebida pelo Espírito de Deus, gestou e gerou como mulher e ser humano, no mais verdadeiro de sua humanidade. Nessa maravilhosa história, o Filho de Deus nasce como nascem todos os seres humanos, entre dores, entre sangues e suores, ouvindo gemidos, com medos e receios, com sustos. Não há médicos e hospitais. Como, durante milênios, não houve médicos e hospitais atendendo a parturientes. Sempre houve mulheres assistindo mulheres, parteiras, as mais idosas e vividas, conhecedoras dos mistérios da vida, as que trouxeram incontáveis milhões de crianças ao mundo. Maria não teve sequer parteira. Teve José, o companheiro, a assisti-la no trabalho de parto, o primeiro ser humano, certamente, a tocar no menino ao sair do ventre da mãe.

O parto de Maria, por incrível pareça – e é uma das belezas de nossos tempos confusos – começa a ser revivido num movimento crescente de jovens mulheres grávidas que querem ter os seus filhos em casa, de parto natural, assistidas e auxiliadas por parteiras, por doulas (mulheres que auxiliam, na origem grega da palavra), sob orientação médica. Nascer em casa, nascer na cama de pai e mãe, eis aí uma retomada de experiência que mães jovens buscam, como que fortalecidas em sua consciência de maternidade.

Imaginar o parto de Maria numa estrebaria, ao lado do marido, a criança vindo ao mundo de maneira assustadoramente acolhedora: saindo do ventre da mãe e sendo recebida pelas mãos do pai, mesmo que, na grande história, pai adotivo. É mistério e é maravilha para se refletir. Bom dia.

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