Reflexões de Natal – 4 (A estrela, os magos)

picture (3)As pessoas fazemos esforços hercúleos de sobrevivência, sem imaginar que nos referimos a Hércules. Pais temem por doenças e transmissões venéreas que possam atingir os filhos, sem se lembrarem de que se referem a Vênus. O erotismo da televisão é remissão a Eros. O pânico das pessoas diante do estouro das bolsas de valores é herança de Pã, o agitador. Malhar o Judas é punir o traidor dos Evangelhos. Judiar e judiação são referências preconceituosas a judeus. Eis aí um pouco do mito em nossas vidas cotidianas.

No céus, há miríades de estrelas, algumas piscando timidamente, outras deslumbrantes de luz. Reis, originalmente, são personalidades especiais com intimidade com os céus, a terra e o homem. Seriam elementos de ligação, assim como o Papa para os católicos. E, no entanto, há reis que se impuseram e outros que se tornaram tiranos. Por outro lado, na televisão, no cinema, nos esportes e nos entretenimentos, as pessoas de destaque são vistas como “estrelas”.

Na mais bela história do Ocidente, foram reis do Oriente – Melchior, Baltazar e Gaspar – que viram a estrela da anunciação. E é notável como os narradores dessa história admirável conseguiram sintetizar a humanidade em três personalidades que representavam povos e nações: Baltazar, negro e rei da Arábia; Melchior, branco e rei da Pérsia; Gaspar, de cor amarela e rei da Índia. Eram Magos não por razões de magia, mas por honorabilidade e distinção. Magos eram os que tinham a “grande alma” ou o “espírito forte”. Gandhi foi chamado de Mahatma, a grande alma, o mago, por sua honorabilidade. Pois foram aqueles três reis e magos que viram e compreenderam a Estrela anunciadora, como um encontro de Vênus e Júpiter, uma conjunção singularíssima que seria indicativa do grande e esperado acontecimento: o lugar onde nasceria o Ungido, a última grande estrela.

Ora, tinha que ser uma estrela, pois os orientais ouvem estrelas e lêem nelas, onde tudo está escrito, o “macktub”. Estrela-guia, estrela-símbolo remonta à Babilônia, onde três estrelas representavam a divindade, Lua, Sol, Vênus. Até hoje, mesmo que as pessoas nem saibam disso, o pinheiro de Natal é encimado por uma estrela que se destaca entre bolas de ouro e prata pela razão antigamente sagrada de representar uma síntese do céu. E foi no céu de nossa história, observado pelos Reis Magos, que a Estrela Guia apareceu. Ela apontava, ao mundo, o lugar do nascimento do esperado, do ungido, do salvador. Era um menino, um simples menino. Para quem os Magos entregaram os presentes, sinais da boa nova, da esperança, da abundância; o ouro da nobreza, oferecido apenas aos reis; o incenso, símbolo da fé, destinado aos sacerdotes; a mirra, perfume suave e do sacrifício, ofertado aos profetas.

Começava a acontecer a mais bela de nossas histórias que, pelo visto, nem o presidente Lula ainda entendeu, na sua desesperada gritaria estimulando o povo a consumir. Natal é simbolismo de fraternidade e de confraternização. Presentes são sinais e desejos de felicidade a alguém que se ama e que se respeita. Numa caixa de doces, oferecida aos que amamos, estão todo o nosso ouro, a mirra e o incenso que podemos oferecer. Mas falta-nos a estrela e faltam-nos reis honoráveis que nos lembrem do que anda esquecido. Bom dia.

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