Reflexões e roupa da Dilma

ReflexõesEm congresso de proprietários de meios de comunicação – debatendo os novos e importantes recursos tecnológicos – o diretor de conteúdo do Grupo Estado enfatizou uma das mais importantes preocupações da atualidade: a reflexão. O receio é o de que, com a velocidade dos meios, perca-se a reflexão, levando o jornalista a informações precipitadas e decisões erradas. O palestrante lembrou-se de que o repórter, até recentemente, após uma entrevista, voltava para a redação, passava no bar da esquina para tomar um cafezinho e, enquanto isso, formulava seu raciocínio, compondo a estrutura do texto. Agora, escreve a partir do celular, enviando a informação o mais rápido possível.

Temos, pois, a inversão da pirâmide. Antes, a profundidade do texto era inversamente proporcional à sua velocidade. Assim, a rádio era a primeira a informar, mas com texto superficial; em seguida, a tevê, com a vantagem de fornecer a imagem; daí, o jornal, já com texto mais elaborado; finalmente, a revista, com tempo e informações suficientes para uma análise mais profunda. Com a era eletrônica, tudo é rápido, veloz e jornais eletrônicos competem com as rádios, de forma que, na maioria das vezes, o jornal impresso irá mostrar-se superado ao divulgar a mesma notícia. São problemas. E são vantagens. No entanto, a reflexão, parece-me, é o ponto-chave de toda a questão.

O outro lado da moeda também é grave: o leitor lê sem refletir. Na maioria das vezes, lê apenas o título, ou a informação rápida sobre a matéria. Não absorve o texto que, por si mesmo, já é frágil em virtude da luta contra o tempo. Ora, se a informação é precária e o leitor a recebe apenas superficialmente, sem refletir e sem se aprofundar nela, onde houve, na verdade, a comunicação? E qual tipo de informação se forneceu ou foi recebida? Insista-se: a má informação é mil vezes pior do que a desinformação.

O leitor também está refletindo pouco. E isso pode ser percebido por qualquer profissional de imprensa minimamente experiente. Não se pode mais criar sutilezas de linguagem ou de imagens, que a maioria dos leitores não percebe. A linguagem da internet, abreviada e grosseira, está sendo exigida também nos jornais tanto impressos como eletrônicos, e isso é um erro, gravíssimo. O dever da imprensa é informar bem e corretamente, o que é, também, uma maneira de formar. Ceder ao modismo de um tempo é fracassar na missão de rascunhador da história, pois jornalismo é exatamente isso: fazer o rascunho da história.

A crise, porém, está instalada. Há poucos dias, reportei-me a uma parábola que foi referencial na II Guerra, a do trem que parou. Um jovem desceu e o condutor insistiu: “Você não pode descer.” O jovem respondeu: “Eu desci.” O condutor falou com certeza: “Mas o trem não para aqui.” E o jovem confirmou: “O trem parou.” Nem o condutor nem os demais passageiros perceberam que o trem parara. Ou seja: que o tempo passara, que o mundo era outro. E é o que está acontecendo com as classes dirigentes brasileiras, as tais elites. Não perceberam que o Brasil mudou, que o povo é outro, que houve uma transformação radical em costumes, em lideranças, em tendências e caminhos.

De julho até dezembro próximo, mais de 11 milhões de brasileiros irão viajar de avião pela primeira vez, sendo que 8,7 milhões pertencem às classes C e D. E estas, incluindo a classe E, representam 87% da população brasileira, respondendo por 76% do consumo, detendo, também, 69% dos cartões de crédito. É uma realidade monumental, impressionante. Ou seja: o trem antigo parou. E as antigas lideranças não perceberam. Tanto assim é que, uma das porta-vozes da classe que compra na Dazlu, Sônia Racy, fez um comentário significativo ao ver Dilma Roussef participando, como convidada, da reunião do G-20, onde se discute o futuro das nações, à beira da bancarrota. Sônia Racy, acho que lambendo ainda as feridas no costado tucano, não enxergou o significado de a nova presidente do Brasil estar em conclave tão importante, mas viu o acessório, o superficial, o supérfluo, escrevendo e informando: “Dilma Roussef repetiu o vestido que usou na campanha.” Ora, bolas! E ainda querem saber por que um novo povo está, com suor e lágrimas, construindo um também novo Brasil? Bom dia.

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