Reinventando o pecado

PecadoDefendo, ferozmente, a necessidade da volta do pecado. Agora, quando nada mais é pecado, o mundo ficou sem graça. Pois o bom do pecado está na possibilidade de pecar. Quando não há pecado, faz-se tudo e não se peca. E, então, fica-se no vazio, no sem-graça, no fazer por fazer. A vida tem sentido diante de leis e de regras. Ou para serem seguidas ou para serem rompidas.

Suponhamos não seja pecado ou crime assaltar um supermercado. Em não o sendo, qualquer supermercado pode ser assaltado. Quando se nega a existência do pecado, acaba-se, a pouco e pouco, negando-se, também, a existência e até mesmo a possibilidade de delitos, infrações, crimes. Hoje, falamos de liberdade com um bem de tal forma absoluto que não admite contestação. Mas, na verdade, é um dos temas fundamentais da vida humana, que filósofos e pensadores discutem desde a Antiguidade. Pois nada, quando se pregam lições erradas, tem tanta semelhança com a liberdade quanto a anarquia. E o que tem interessado agora, especialmente aos poderosos, são regimes e sistemas anárquicos. Liberdade é outra coisa, valor profundamente interior e absoluto nessa interioridade humana, mas condicionado e limitado nas relações sociais, familiares, civilizadas. Liberdade tem consequências. Logo, há que se responder por elas.

Por isso, invejo os que sabem o que é pecado e que têm capacidade de pecar, em me referindo a pecar contra Deus. Fico frustrado diante deles. Pois, sabendo e tendo capacidade de pecar contra Deus, tudo fazem para não cometerem o pecado .Só não sei o que pensam em relação ao pecado em relação ao próximo, ao pecado social. Ora, eu me sinto absolutamente incapaz de pecar contra Deus, pois seria, em meu entender, uma pretensão estúpida imaginar que, na minha pequenez, eu seria capaz de uma ofensa a Deus. E, no entanto, diante do mundo e da vida, peco o dia todo, a todo instante e nem sequer dou-me conta de estar pecando. Pois eis aí a grande questão: o que é o pecado, em que se transformou, ainda existe?

Sinto, cada vez mais fortemente, a noção de pecado contra a vida. E este é, para mim, o maior de todos, talvez o único, pois abrange tudo: pecar contra a vida é violentar o que existe, o que é vivo, essa sinfonia de que somos parte quase sempre dissonante. Deus, no meu entender, já fez o que tinha que ser feito e, por isso, é preciso deixá-lo em paz, em seu descanso de sétimo dia sem fim. A obra, agora, é nossa; estamos no mundo, somos parte da vida e, no entanto, acreditamos ser senhores e tiranos de tudo. Tornamo-nos, então, predadores.

Insisto na necessidade vital, urgente, visceral de retomarmos a noção de pecado, ensinando-o em especial às criancinhas. Lembro-me de minha mãe que não permitia jogássemos no chão ou no lixo sequer um restinho de pão: “Isso é pecado. Quando não quiser mais o pão, beije-o e deixe-o de lado.” E ela, com restos de pão, esfarelava-os para os passarinhos; com restos de comida, fazia gororobas para galinhas, gatos e cães.

Confesso, de minha parte, não acreditar em céus e infernos, em outras vidas. Mas estou entre os que gostariam, com urgência, de que tudo isso fosse recriado, reconstruído. Especialmente o inferno. Para criancinha saber que, se chegar a fazer política algum dia, deve ser correta para não ir para o inferno. Pois, para a cadeia, sabe-se que bandido esperto não vai mesmo. Bom dia.

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