Reler Eduardo Prado

Eduardo PradoEm 1893, nos albores da República brasileira, os militares mandaram apreender um livro e impedir sua circulação. Tratava-se de “A Ilusão Americana”. Seu autor, Eduardo Prado, era um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, de tradicional família paulista de fazendeiros, muito rico, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letra, jornalista valente, escritor fecundo, viajante incansável ao redor do mundo. De inteligência inquieta e com profundo senso de brasilidade, em “A Ilusão Americana”, Eduardo Prado, que não se alinhara ao movimento republicano, advertia o Brasil e a América Latina sobre os apetites imperialistas dos Estados Unidos. O livro foi apreendido por ser impossível refutá-lo, tais os documentos, fatos e revelações indesmentíveis. Eduardo Prado alinhava as invasões, agressões e violências cometidas pelos Estados Unidos na América Latina.

A história estadunidense em relação ao mundo poderá, talvez, ser chamada de “Síndrome de John Wayne”, ator que, com seus filmes de bandido e mocinho, se tornou um dos ícones dos americanos do Norte. Ou, por outra forma, John Wayne soube encarnar, à perfeição, o espírito de conquista, de mandonismo, de superioridade e truculência que caracterizou a história dos Estados Unidos, uma história, aliás, também feita de heroísmos, trabalho e dedicação. A grande questão foi que, além de si mesmos, os Estados Unidos pouco enxergaram o mundo. Ou, quando o enxergaram, viram-no conforme os seus interesses. Desde o Século XIX, as suas invasões e guerras são registradas como guerras de conquista e imperiais. Foi assim com o México, em relação ao Texas, à Flórida; também com a Califórnia. Invadido, o México perdeu metade de seu território. E com o Haiti, com a República Dominicana, Cuba, até mesmo com as Ilhas Malvinas. E também com Nicarágua, Honduras, Costa Rica, Nova Granada, Panamá, São Domingos.

As intervenções estadunidenses no mundo não precisam ser arroladas, pois continuam vivas na memória de qualquer aprendiz de historiador. A América Latina – nas décadas de 60 e 70 – deve o surgimento das nossas sangrentas ditaduras à política internacional dos Estados Unidos que – em plena guerra fria – não admitiam surgisse, no hemisfério Sul, qualquer país com veleidades democráticas esquerdizantes. Os golpes militares – no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai – e isso já está definitivamente provado e comprovado – foram orientados pelo “War College” e pelo Pentágono, com a indefectível participação da CIA. Era preciso manter a América Latina quietinha, enquanto os “marines” bombardeavam o Vietnam, Camboja e todo o Sudeste Asiático.

Com o Presidente Bush, o filho, os EUA não se contentaram em ter – a pretexto de vingar-se do atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono – agravado a destruição do Afeganistão, com a morte de milhares de civis inocentes, velhos, mulheres e crianças. Como um John Wayne redivivo, quis mais guerra, ainda querendo ser xerife do mundo. O Iraque foi o novo alvo. E ninguém – nem a ONU, nem os países que se dizem aliados – conseguiu convencer John Wayne de o Iraque não ser território apache ou sioux, mas um país, uma nação e um povo com história milenar. Atordoada com a reação iraquiana, a máquina estadunidense voltou-se, novamente, ao Afeganistão, precisando alimentar, mesmo com a terrível crise que enfrenta internamente, a indústria da guerra. O próximo alvo: Irã.

Homem do petróleo, homem ligado à indústria de armamentos, Mr.Bush, tal qual o pai, brincou de bandido e mocinho como se o mundo fosse dele. Só que, em vez de flechas e espingardas, o brinquedo, agora, é o armamento eletrônico, sinônimo de fim-do-mundo. Nesse filme, tendo Mr.Bush como mocinho, a platéia acabou torcendo para o bandido. Quando Barack Obama foi eleito, eis que se pensou em novos tempos, em novas realidades, mas o ranço histórico dos Estados Unidos permanece vivo. Por que tanta fúria contra Cuba, se tão cordiais são as relações com a China? Por que tanta hostilidade contra o Irã, se Israel comete crimes que aproximam aquele país do próprio Reich de Hitler? Quem duvida que, com a nova crise nas Malvinas, os Estados Unidos ficarão ao lado da Inglaterra, mesmo arrotando verborragia democrática para desmoralizar Chávez da Venezuela?

É hora de o Brasil reler Eduardo Prado. Bom dia.

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