Religião e eleições

pictureSerá tolice – em pouco mais de quinhentas palavras – ousar discorrer sobre política e religião, esse encontro sempre explosivo e perigoso. Desde os mais remotos tempos, a promiscuidade entre política e religião conduziu, quase sempre, a finais trágicos. O início da história cristã é revelador da confusão entre fé e poder, da política e do altar, religiosos e políticos exercendo o mesmo papel. Levamos quase dois mil anos de era cristã para a tentativa de estados laicos e democráticos.

O Brasil – de vida republicana apenas centenária – nasceu sob signos monárquicos: a mitra, o cetro, a coroa. No mesmo banquete, religião e política comeram dos mesmos manjares. O homem brasileiro – nas pequenas cidades e grotões – ouviu mais a voz do padre, do missionário, do que a do político, que este era dependente da mitra e da coroa. Políticos sempre cortejaram a Igreja, igrejas, templos, seitas, terreiros, instituições religiosas. Ainda é assim. Pois o povo – mais apegado à religião do que à política – confia mais no padre, no pastor e no pai-de-santo do que no político.

Mesmo que separada do Estado, a religião influencia a vida brasileira. A atuação político-eleitoral dos chamados “grupos evangélicos” – que criam bancadas nas casas legislativas – é alvo de atenção por interesses nem sempre claros e por práticas nebulosas. São grupos de interesses e grupos de pressão. Mas não se nega que – guardadas dimensões, origens, consolidações e seriedades históricas – as igrejas cristãs tradicionais sempre atuaram politicamente. No Brasil e apesar da república, a presença da hierarquia católica na vida nacional foi e permanece marcante, reconhecendo-se ser, a CNBB, uma das mais poderosas vozes a influenciar governos e legisladores brasileiros. A República não cortou definitivamente os laços.

Quando os denominados evangélicos se organizam também em grupos políticos, colocam, também eles, fermento na explosiva massa da política e da religião. Com determinação – ignorando existir um estado laico – fazem-se arremedos da famigerada Liga Católica Eleitoral que, nas décadas de 1930/40, divulgava o “index” dos candidatos. Quando ainda se falava em “cristandade”, houve a tentativa mundial, fracassada, de um partido católico, a Democracia Cristã. No Brasil, surgiu a AP (Ação Popular) que destrambelhou para a militância apenas política. E, após Puebla, fortaleceram-se as comunidades eclesiais de base, que ajudaram a gestar e a gerar Lula e o PT.

Novamente e em todo o mundo, religião e política contaminam-se, apesar de a história contar que governos tirânicos nascem de crenças ideológicas, quando políticos se fazem sacerdotes diante do povo. Os discursos de Busch sempre foram reveladores de seu messianismo. O Islã ainda crê em estado teocrático. E a democracia ocidental insiste em gerar o cristianismo capitalista. No exercício do poder, o mundo mata em nome de Deus.

O senador José Sarney, há alguns anos, confessou: a reforma política – a mais necessária das que o país precisa – sofria de bloqueios da chamada “bancada evangélica”. A ciência paralisa-se pela pressão religiosa na legislação sobre pesquisas. A educação está enquadrada em moldes religiosos. Em Piracicaba, um bispo impediu que um protestante chegasse à Prefeitura. Agora e ainda outra vez – ignorando o espírito republicano – pastores definem em quem os fiéis devem ou não votar. Apenas brincamos de democracia. É perigoso. Bom dia.

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