República e construção

ConstruçãoAs repúblicas não nascem por si mesmas ou por si só. São construções. Por isso mesmo, tornam-se sólidas se sólidos for seus alicerces. E ruem, se construídas na areia. O sonho republicano de Platão parece tão distante e ausente de nossos dias que, na realidade, vale mais como referência ou utopia. Permanece a ideia de res publica, a coisa pública, que os romanos deixaram como herança de uma forma de governo diferenciada, mas distante, também, do que se entende por república moderna.

Portanto, uma república não nasce feita. E, antes de mais nada, precisamos definir para nós mesmos e como povo o que entendemos por república e como a desejamos. Afinal de contas, uma casa de estudantes é também uma república. Há repúblicas de bananas, caóticas e corruptas, em mãos de ditadores. E dá-se o nome de república, igualmente, a casas que não têm ordem e disciplina. O Brasil, república instituída por militares, num golpe de estado que derrubou o regime monárquico, enquadra-se em quê, se é, ainda, uma construção que se ergue e se desmancha, que se faz e se desfaz? Aliás, povo haver república sem um povo que a anteceda?

A simples proclamação da República feita por militares não significou, no Brasil, que ela tenha sido criada. Foi imposta, sem participação de povo, sem definições a não ser como resultado de frustrações e ambições de grupo, de sonhos intelectuais encastelados em seus templos de pretensa sabedoria. Pouco mais de cem anos após aquele 15 de novembro de 1889, o Brasil ainda se debate em discussões de ordem filosófica e de sociologia política, alimentada por todas as ciências sociais. As diferenças regionais brasileiras são tão grandes e intensas que não podemos, ainda agora, falar em uma verdadeira unidade nacional, a não ser através da língua e da moeda. Vejam-se os infames debates que se fazem, após o resultado das eleições recentes, a respeito de preconceitos paulistas contra nordestinos. A idiotice de uma estudante de Direito paulista, sugerindo a “morte, hoje, de um nordestino”, não é tão infantil e imatura como parece. Há sentimentos crescentes de regionalismo cego, de preconceitos e de exclusão, como se São Paulo retornasse às suas origens separatistas, como aconteceu, também, com Bahia, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Sul e outras antigas províncias brasileiras.

Somos uma nação em formação, agora com sentimentos e valores comuns que começam a estar mais definidos e claros. Se, antes, as pessoas se consideram mais baianas, paulistas, mineiras do que brasileiras, estamos vendo um sentimento de brasilidade que se acentua e se consolida. Mas e a República? Se, ao início de tudo, Saldanha Marinho – um dos líderes maiores das idéias republicanas – se lamentou ao dizer “Esta não é a república dos meus sonhos”, há que se perguntar, hoje, com qual república estamos sonhando. Pois não pode haver república se, no plano político, vivermos sentimentos e conceitos de capitanias hereditárias, de sesmarias, de heranças familiares. Não haverá república se partidos políticos tiverem donos e, portanto, eleições livres e democráticas – estruturas essenciais de uma república verdadeira – existirem com vícios de origem.

Hoje, um grupelho de fanáticos está lançando a idéia e um movimento em favor do separatismo, na proposta alucinada de se criar a República de São Paulo. Soa como se, por aqui, tivesse baixado o espírito de Sarah Palin e do “tea party” dos Estados Unidos, até porque, saiba-se lá, o modelo republicano que os pais da pátria sonharam foi uma cópia da construção elaborada por George Washington e Thomas Jefferson, entre outros, para o país da América do Norte.

Não há república sem justiça social, sem estruturas jurídicas decentes, honestas e que possibilitem a idéia do “bem comum”, da “coisa pública” ser uma realidade e não apenas conveniente para grupos dominantes, políticos e econômicos. O Brasil cresce, desenvolve-se, deu passos de gigantes nestes últimos anos. Temos, hoje, condições de romper vícios e de vencer privilégios e preconceitos. E, enfim, pensar seriamente em consertar erros, demolir escombros, refazendo alicerces para essa que será a maior das construção do povo brasileiro: uma república honesta, decente, digna e sólida. Bom dia.

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