Ressurreição sem morte?

picture (37)Há poucos anos e em tempo pascal, comentei um relato feito pelo mitólogo Joseph Campbell em uma de suas magistrais palestras. Tratava-se do encontro de dois líderes, um cristão, outro judeu. Significativamente – pelo menos para mim e em minha vida – aquilo tudo ainda me serve e me inquieta. Daí, voltar a lembrá-lo.

No relato, conta-se que o mestre judeu – discorrendo sobre Deus – fez um desabafo: “Dói falar em Deus na terceira pessoa.” Para o rabino, Deus estava nele próprio. Ele sentia-se deificado, pequeno mas verdadeiro deus em sua humanidade. O líder católico contestou-o, dizendo que Deus tinha a face oculta. O judeu apenas respondeu: “Cada um deve sair de seu Exílio à sua própria maneira.”

Àquela época, a mim, muito se me esclareceu. Foi como o encontro de uma certeza que não me alcançara, a de que todos os homens vivemos exílios pessoais. Acreditei naquilo, continuo acreditando. A partir de meu próprio exílio pessoal, desse desterro, da sensação de, voluntariamente, ter-me afastado de uma pátria conhecida e amada, indo-me em busca de abrigo em terras estranhas. O exílio da alma dói mais intensamente do que o desterro físico.

Ainda naquele relato, Campbell falava da reação de outro líder religioso, hindu, venerador de Vishnu. Vindo para o Ocidente, o religioso hindu ficou, por longos seis meses, procurando conhecer a Bíblia cristã. Então – mesmo dizendo de seu respeito pelo que lera e pelo que estudara – falou ao mitólogo: “Estou lendo, lendo. Mas – sabe? – não consigo encontrar nenhuma religião nela…”

Penso nisso por, em mais outra Semana Santa, sentir-me nostálgico, a ausência de um lugar que não mais consegui reencontrar, uma saudade doída, como se parte de um tesouro pessoal me tivesse sido roubado. Ou que eu a tivesse perdido. Passaram-se alguns anos de quando comentei o relato de Campbell e não cheguei a qualquer conclusão quanto ao vazio, ao quinhão do tesouro: perdi-o, foi-me roubado?

Estou, neste Domingo de Páscoa, referindo-me ao tesouro da fé. Mentem os que falam em fé adulta, em fé madura. Isso se confunde com racionalidade e, então, fica-se como o religioso hindu que – lendo e lendo – encontrou belezas mas não religião. Aquilo que perdi ou que me foi roubado, perdi-o ou permiti me roubassem ao deixá-lo escapar do coração. Pois a fé verdadeira precisa ser ingênua, doce, humilde, quieta, infantil. É o mergulho no abismo sem medo de fazê-lo. Acreditar com o coração e, por isso mesmo, crer no absurdo.

Ao racionalizar, permite-se que o tesouro escape, que fuja ou seja roubado. E, então, ele se vai, talvez voando por aí, vagando entre estrelas, escorrendo com ou em pingos de chuva, pousando no sereno, passeando com os ventos. A doce verdade – que serve como esperança – é a de que, mesmo escondido, o tesouro existe. Fica à espera, expectante, aguardando o homem cuidar de seu coração. Sei continuar por aí, meu tesouro. Mas – ainda outra vez – não tentei pensar as tantas feridas do coração, dando-lhe condições de voltar a sentir com ingenuidade, de viver magias e de acreditar nelas.

A Páscoa, vejo-a à distância, como o exilado sente a ausência de sua pátria. Pois lá se me foi outra Quaresma sem penitência, uma nova Quaresma sem reflexão e silêncios, sem calvários e sem cruz. Ora, não pode haver ressurreição onde não houve morte. Nada matei dentro de mim, não morri em nada de mim. Novamente, pois, fico sem ter o que ressuscitar. Racionalizar é uma doença. Bom dia.

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