Retorno e o dr.Mesquita

pictureJá escrevi sobre coisas “que fazem mal”. Elas existem. Como, também, as que “fazem bem”. Algumas delas: amor faz bem; briga faz mal; sentir faz bem; pensar faz mal. E política e políticos fazem mal, muito mal.

Pensava, eu, em mentiras e farsas de mais essas eleições – coisas que fazem mal – quando me veio à lembrança um velho sábio, que me advertira sobre segredos da vida, descobertas pequeninas que valem mais do que toda a busca de poder. Antes de eu mesmo perceber, o velho homem já percebera o mal que me faziam muitas das coisas em que acreditei, o bem que haveriam de fazer-me outras de que me afastara. Mestre, ele se preocupava com os momentos intensos e quase radicais de minha vida jornalística, tão intensos que se nos tornaram penosos, à minha família, a amigos, a mim mesmo. O sábio homem me advertira: “Não radicalize. Espere a viagem de retorno.” E garantiu-me que, inexoravelmente, ela aconteceria. Aconteceu.

Nunca me esqueci do olhar daquele homem, vagando por espaços vazios, como se contemplasse um ir e vir do tempo do qual se tornara íntimo. Era uma certa placidez de viver que ele alcançara. Mas dava mostras de viver nostalgias, essa saudade de espaço. Falou-me algo que, à época – há mais de vinte anos – me pareceu oposição à idéia da universalidade humana, de aldeia global. Sugeriu-me, não cometer o erro que ele próprio cometera: ir-se sem admitir volta. Mais ainda: ir, esquecendo-se de como ou para onde voltar.

Ele dizia de sua experiência de vida: “ A vida permanece onde se viveu a infância e a juventude. Podemo-nos ir, podemos sair, fugir e procurar – mas o umbigo permanece onde foi enterrado. E, onde estiver o umbigo, está a vida. Fica-se onde ficaram os mortos queridos. Para esse lugar, sempre se volta. Como se volta à infância, à juventude. Viver é ir e voltar.” – foi o que me falou o inesquecível Luiz José de Mesquita.

Diante das “coisas que fazem mal”, tenho fome daquelas que fazem bem. O homem sábio me dizia de sua angústia quando, na viagem de retorno, esteve na cidade onde nascera e nada mais encontrara. Cadê os lugares da infância, da mocidade? E as pessoas? E o jardim, o banco onde tomou a mão da primeira namorada? E a esquina das primícias do amor, beijos furtivos? E a casa onde se nasceu? E o quintal onde se brincou? Sem respostas, o homem me aconselhou: “Ao fim, todos fazem a viagem de volta. Não apenas para onde nascemos, mas para dentro de nós, onde escondemos tesouros.”

Ora, assumo ter sido tolo acreditando em democracia onde são pérfidas e injustas as estruturas. E por crer em eleições comprometidas por vícios de origem. Não tenho respostas, a não ser minha caverna pessoal. Tentei. Fui e não consegui ficar. Vi e não gostei. Há estradas que saem do nada, conduzindo para lugar algum. Percorri-as. E nada restou senão voltar. No retorno, sei onde ficou o umbigo, o pedacinho de alma ferida, a gota de fel, o pingo de mel, onde e com quem o coração se alegra. E onde e com quem o coração se amargura. Mais do que para algum lugar, a viagem é de retorno por dentro de mim. E política e políticos não têm espaço na busca de tesouros perdidos. Ou escondidos.

Estou à espera de meu raio de luar. Em sua cauda, viajo. Ele conhece o caminho do tempo, sabe ir e como voltar. Por isso, em noite de lua cheia, escancaro as janelas. Sei que ele chegará, antes de um amanhecer. Então, trocarei a lágrima angustiada por um pingo de orvalho matutino. Haverá de acontecer, tenho certeza.

A luz ao final do túnel brilha por dentro. Bom dia.

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