Reverência ao Bairro Alto

Bairro AltoMais outro grande benefício o Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba – valentemente presidido por Pedro Caldari – prestou à nossa cidade ao publicar o precioso livro de Luiz Nascimento, “Memórias do Bairro Alto”, pela Editora Equilíbrio. Em exaustiva e rica pesquisa, Nascimento reuniu verdadeiras preciosidades de um dos bairros mais amados e representativos de Piracicaba, com sua riqueza cultural, educacional, artística, com seus tipos populares, empresas comerciais e industriais, com sua gente generosa, ativa e apaixonada pela terra.

Tenho, para mim, que o piracicabano, mesmo sem ter consciência disso, olha para o Bairro Alto com os olhos do coração, como se a Igreja do Bom Jesus, com a imagem do Cristo de braços abertos, fosse a proteção espiritual da cidade. Subir a rua Moraes Barros e descer a 15 de Novembro é como um ritual do piracicabano. E, do centro da cidade, olhar as subidas e descidas, é como lembrar que o Bairro Alto era a passagem obrigatória para quem estava enveredava pelo Picadão de Mato Grosso. Bairro Alto de artistas, de políticos, de educadores, de trabalhadores, Bairro Alto da árvore símbolo não apenas dele, mas também da cidade, a Sapucaia, agora com inicial maiúscula.

Não creio que outra região de Piracicaba tivesse sido palco e cenário de tantas e tão belas serestas como o Bairro Alto, sei lá se por influência do inesquecível Cobrinha, se pela flauta do esquecido Osório de Souza – moradores do bairro – se pela beleza das então moçoilas em flor a quem os jovens seresteiros faziam juras e promessas de amor. Luiz Nascimento, contando a história e recuperando informações do Bairro Alto, faz uma viagem afetiva e amorosa ao bairro, deixando, para os piracicabanos, um roteiro histórico e sentimental. E confesso ter-me emocionado, saudade de meu violão, de meu grupo de seresteiros da juventude, serestas sob a janela das bem-amadas, amores de juventude.

Será, de minha parte, injustiça citar alguns e poucos nomes dos tantos que compuseram essa sinfonia do Bairro Alto, além de pintar toda uma policromia da pluralidade do bairro, síntese de nossa terra. Não resisto, porém, de me lembrar de Anuar Kraide que, ao com Jorgito Chaddad, compôs os “Sinos do Bom Jesus”, música que nos embalou alegrias dos anos dourados. E não resisto, também – apesar de relações de parentesco que tive com o pessoal desse já histórico Bar Cruzeiro – lembrar-me do Bigeto, bar nos fundos do qual corria solta a mais pura e romântica boêmia.

Meu primeiro lar de casado, nos já distantes inícios dos 1960, foi no Bairro Alto. E esse casamento aconteceu a partir de um namoro cujo início se deu à entrada da Igreja do Bom Jesus, numa missa de domingo, às 10 h. da manhã. A menina amada, que se tornou mãe de meus filhos, morava no Bairro Alto e, quando a vi, ela estava de sapatinhos de verniz, uma saia florida e blusa rosa, decotada, menina-moça em seus 14 anos, “mais menina do que mulher”.

O Luiz Nascimento fez um trabalho admirável que se torna, na realidade, uma elegia ao Bairro Alto, uma reverência. Pedro Caldari já o fez em relação à Vila Rezende. Nascimento compõe o filme de um dos lugares mais merecedores de respeito de nossa terra. Que nessa trilha possam vir novos autores, com o mesmo brilho, contando-nos da Paulista, de Tupi, da ainda nossa Saltinho, e da Vila Boyes, que foi um santuário de trabalhadores também no Bairro Alto. O trabalho de Luiz Nascimento é um tesouro que o piracicabano deve guardar no coração. O IHGP, editando-o e publicando-o, mostra, ainda outra vez, a sua importância para Piracicaba, importância nem sempre correspondida, entendida ou avaliada. Cidade sem memória é cidade morta. Piracicaba ainda tem os que, além de preservá-la, a propagam às novas gerações. E bom dia.

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