Rojões na Rua do Porto. Ainda.

picture (13)Rojões assustam-me e deslumbram-me ao mesmo tempo. Pois, ora veja: nasci em manhã de São João, e – segundo Zulmirão, preta velha e amada cozinheira de nossa infância – dia de Xangô. Ora, com Xangô e São João, tudo é foguetório e encrenca. . Para piorar, minha mãe contava que, comigo na barriga, tinha vontade de comer crista de galo frita, à pururuca. Era como – quando das minhas brigas jornalísticas – tentava justificar as estrepolias do filho briguento, enquanto ela mesma soltava rojões e acendia fogueira em festa junina: “Culpa minha: eu comia crista de galo e ele nasceu com fogo de São João.” Deu no que deu.

Mas houve alegrias e deslumbramentos. Rojões e foguetes incendiaram-me a paixão pelo Corinthians. Eu estaria lá com cinco anos, meu pai me levou ao Parque São Jorge ver o Corinthians jogar. “Pegamos o trem”, como se dizia, fizemos baldeação em Nova Odessa, descemos na Luz. De lá à “Fazendinha”, não me lembro como fomos. Mas me recordo de um alambrado comprido, de árvores, acho que pinheiros. Parecia um lugar bucólico.

De repente, a explosão: rojões, mil rojões, a torcida uivando, o foguetório ensurdecedor. Era o Corinthians entrando em campo. Todos, incluindo meu pai, pareciam enlouquecidos, pulando, berrando. Meu pai me ergueu nos braços, urrava: “Olha lá o Servílio, o Domingos da Guia…” Não vi ninguém. Extasiados, olhos e ouvidos deslumbravam-se diante da festa de rojões e de gritos heróicos, os tais brados retumbantes. Nem sempre rojões são a cólera dos homens, como nem sempre trovões são sinais de deuses coléricos. Homens e deuses alegram-se ribombando.

Doutra feita, foi em Quebec. Cheguei à cidade no dia de meu aniversário. O avião pousou, mal pus a cara para fora, a porta se abriu, mil rojões explodiram. Agradeci, lisonjeado pelo privilégio de o Canadá comemorar o meu aniversário. Minha mulher me deu uma cotovelada: “Largue de ser besta, siô. É aniversário de Quebec e o padroeiro é São João.” Fiquei desconsolado. E eu?

Depois, em Piracicaba. A partir dos anos 1970, rojões tornaram-se maus sinais. O combate e o embate eram terríveis, contra o tráfico de drogas e traficantes. Lembro-me de que estávamos em luta sem tréguas, as ameaças crescentes, autoridades omissas. Policiais estavam envolvidos, isso lá naqueles tempos, pois, hoje, dizem tudo estar diferente. Rojões eram uma senha, sinal de, na região onde espocavam, haver droga disponível. Houve época em Piracicaba que toda noite parecia ser noite de São João. A Polícia ficava olhando. Até que a vaca foi para o brejo.

Minha relação, pois, com rojões, sempre foi de susto e deslumbramento. Ainda recentemente, almoçando na rua do Porto, assustei-me. De repente, começaram a espocar, estalir, estrugir rojões. Ora, não era meu aniversário, eu não tinha nascido de novo, o Corinthians não estava jogando. Seria aviso de drogas chegando? Não, não podia ser. Se fosse, a polícia, tão eficiente, estaria de sobreaviso, chegaria rapidamente. E, em intervalos pequenos, rojões espocavam, popocavam, estralavam e estralejavam. Então, as garças voaram assustadas, indo-se em busca de sossego; cotias fugiram; peixes foram-se embora. Por que tanto rojão na rua do Porto?

Encafifei. Alguém me disse que é comerciante espantando passarinhos que voam em torno de clientes, soltando sujeirinhas. Pode ser, mas pode não ser. Pois, quando rojão é muito, até são João desconfia. Bom dia.

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