Roubaram o São Benedito

Igreja São BeneditoA Igreja e a Irmandade do São Benedito são uma das mais heroicas e belas páginas da história de Piracicaba, seja pela devoção dos negros, pela participação da família do Barão de Rezende, mas, também e especialmente, pelo manancial de cultura popular e negra que detém e contém. No entanto, como se houvesse, ainda – e não queremos crer nisso – ranços e resquícios de preconceitos e menosprezo pelos herdeiros da mancha da escravidão, tanto a igreja quanto a irmandade – que é uma das mais antigas do Brasil – estão sendo menosprezadas, pode-se dize que até espezinhadas pelo poder público. A própria Igreja Católica não luta por aquele patrimônio o tanto e quanto se era de esperar, mesmo havendo quem ainda conheça o admirável histórico da Igreja de São Benedito que, por bom tempo, se tornou a igreja matriz da diocese quando da construção da Catedral de Santo Antônio.

O patrimônio de São Benedito foi esbulhado, essa a verdade. E isso começou ainda no segunda administração de Luciano Guidotti quando, num crime histórico – que teve o então jovem arquiteto João Chaddad como cúmplice – se fez a destruição de um patrimônio inavaliável, o Solar do Barão, onde funcionava a antiga prefeitura. Derrubou-se o solar histórico, destruiu-se o jardim, derrubaram-se as palmeiras imperiais plantadas pelo próprio D.Pedro II em sua última visita a Piracicaba. Tudo foi destruído para se construir um verdadeiro caixão para abrigar a Prefeitura, uma obra que se transformou caricata. Havia até planos de se derrubar a centenária Igreja de São Benedito, para se construir, naquela área – onde se instalaria o Fórum, que abriga atualmente o Instituto Histórico e Geográfico – o que se chamaria Praça dos Três Poderes. Foi idéia ridícula que não vingou. Mas que deixou prejuízos culturais e históricos inavaliáveis.

Pode-se dizer que São Benedito foi roubado, pois roubaram-lhe terrenos, tomaram posse da praça fronteiriça à igreja para transformá-la em estacionamento ao ar livre, destruíram parte do prédio histórico, ao fundo, onde funcionavam sacristia, sala de catequese, a irmandade e, por um tempo, até mesmo a cúria diocesana. A Irmandade, há anos, vai de Ceca a Meca, sem que ninguém lhe dê satisfações ou tome providências, permanecendo a ameaça a um patrimônio e a uma instituição históricos.

A Câmara de Vereadores, preocupada com ampliação de estacionamento de veículos ou em construção de um túnel sabe-se lá para quê, não se dá conta de que houve uma invasão a um bem histórico, relegando a questão a segundo plano, ou minizando-a, como deviam fazê-lo os antigos senhores de escravos que mal ouviam queixas de negros, por considerarem-nos inferiores ou seres sem direito. Na verdade, em tempos ditos democráticos, a Irmandade de São Benedito está sendo tratada com menosprezo e desrespeito, que são também ofensas à história de Piracicaba. Nem mesmo o Codepac – que está acéfalo – se posicionara para orientar decisões.

O terreno era da Igreja tendo a Irmandade como guardiã, incluindo o seu entorno, onde se realizavam festas, quermesses, procissões e até danças folclóricas Lembro-me de, quando criança, ser levado, com moradores da região central, às aulas de catecismo no anexo da Igreja de São Benedito, o salão dos “cruzadinhos”, onde o Padre Romário cuidava da orientação religiosa de crianças e adolescentes, preparando-as para a primeira comunhão, crisma, etc. Brancos e negros uniam-se num lugar sagrado e histórico. Senhoras da sociedade piracicaba, sem distinção de cor, tratavam o São Benedito como jóia rara da coroa católica de Piracicaba, burilada por Lydia de Rezende.

A ignorância ou a má fé de nossos tempos são verdadeiras bombas de dinamite implodindo patrimônios históricos, sem que lideranças locais reajam, talvez seduzidas por construções de pontes que favorecem condomínios, avenidas que ampliam tráfego de produtos industriais – uma cidade que está morrendo em suas raízes por força da infestação tóxica em seus galhos e tronco.

Há uma lenda que deveria preocupar políticos de hoje: a Igreja de São Benedito mata! A história tem mostrado que todos os que tentaram demolir ou prejudicar o São Benedito tiveram fins trágicos: Luciano Guidotti, que começou tudo e tentou demolir a igreja, morreu repentinamente; Salgot Castillon, que teve ideia semelhante, foi cassado em seus direitos políticos; Cássio Padovani, que retomou a ideia, morreu no cargo e, agora, até a morte de João Herrmann Neto é atribuída a esse mistério, havendo quem se lembre da indefinição do filho dele, Gustavo Herrmann, quando presidente da Câmara. O prefeito Adilson Maluf, que tem Benedito no nome, escapou da praga por, querendo também mexer naquele patrimônio, ter sido impedido por sua própria mãe, devota de São Benedito. Portanto, o prefeito Barjas Negri que se cuide: doente ele já está. Mexer com São Benedito é agravante.

E Piracicaba,que também está contaminada pelo vírus do materialismo e do individualismo sem freio, se acautele. Pois a reação da Irmandade é tão poderosa que está clamando por forças desconhecidas, dos tempos de ancestrais vítimas de chibatadas, de sangue, de suor, de dores, amainadas pela fé em Nossa Senhora do Rosário e em São Benedito.

No dia 13 de Maio, data da abolição, líderes negros prometem um movimento de recuperação do patrimônio, acorrentando-se à porta da Igreja ou onde está aquele pérfido estacionamento. Que Piracicaba reaja e devolva, à Irmandade, o que lhe foi roubado. Não acreditar na força da fé é estupidez. Bom dia.

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