Ruas da cidade

CidadeSempre gostei de sair pelas ruas da cidade em busca das que não conhecia. Certa vez, inventei uma secção de jornal com o nome “Se esta rua fosse minha …”, onde eu esperava que as pessoas falassem do que lhes significava o espaço onde moravam, ou qual rua gostaria de ter para si mesmas e, então, transformá-la em seu lugar ideal. Foi uma decepção: as pessoas queriam esta ou aquela rua, mas para poder consertá-la, como se as ruas tivessem perdido o encanto e a poesia. Talvez, até mesmo tenham perdido e eu não havia percebido.

As ruas da infância eram, pelo menos, as de que as pessoas se lembravam, ruas que não existem mais, transformadas, modificadas. De minha parte, é curioso: nunca gostei das ruas de minha infância, talvez porque, naqueles anos -, ainda da Gerra Mundial ou do pós-guerra – houvesse muita tristeza entre as famílias, talvez medo. Sempre morei, até a maturidade, no centro da cidade. Precisei ficar homem maduro para descobrir que isso é tolice, que a própria cidade chega a ser uma tolice, quando perde o seu encanto e a sua razão de ser: um lugar de morar, de existir, de conviver. As cidades se tornaram o lugar da disputa, da competição e, portanto, dos desatinos. Por isso, fui para o mato e, a cada dia que passa, sinto-me mais bicho do mato e, portando, mais em paz.

Uma vez, saí por aí e descobri uma rua linda, rua de apenas um quarteirão. Não tinha nome, mas marquei o local: na descida da Octávio Teixeira Mendes, em direção ao Piracicamirim. A rua tinha então casas simples e, no entanto, árvores esplendorosas, rua de sol nas alturas e de sombras no chão. Crianças estavam jogando futebol e nem sequer perceberam que um automóvel se aproximara delas, um beco sem saída. Era uma rua que parecia um refúgio de famílias, um lugar onde as pessoas viviam em paz, onde podiam construir um lar, pobrezinho que seja mas cercado e tranquilidade. Foi a sensação que me deu.

Aquela rua me encantou e “se esta rua fosse minha …”, pensei comigo, eu iria preservá-la de transformações, de mudanças. Mas aconteceu algo estranho. Alguns dias depois, fui procurar aquela rua, para vê-la novamente. E não a encontrei. Perguntei, a algumas pessoas, por uma rua sem nome, naquele local. Elas me olharam assustadas: “não existe essa rua, senhor”.

Eu sabia que existia. Ou será que, algumas vezes, são os olhos da alma que enxergam?

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