Santo da terra, galinha do vizinho

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Já me convenci: santo da terra não faz milagres. E a galinha do vizinho é mais saborosa. É inútil discutir.

Fiquei nervoso. E prevejo dificuldades para escrever o que tenho vontade de contar. Quando fico nervoso, atrapalho-me ainda mais. Por isso, devo uma explicação preliminar. Trata-se da cegonha.

Com essa história de sexo banalizado – implícito, explícito, no quarto ou na praça – esconderam a cegonha. Mas ela existe. Não é, na verdade, como se contava antes, cegonha trazendo bebês. Não é isso. A cegonha traz a alma dos bebês. Papai e mamãe dão um jeito, criam o corpinho da criança. Mas falta a alma, que esta é uma só, uma imensa alma humana escondida atrás das nuvens. Quando um bebê vai nascer, o casal pede um pedacinho da alma infinita e eterna, a cegonha vai lá, dá uma bicadinha, traz a alma, põe na barriga da mamãe. E o bebê tem sua alma. Que já sabe tudo.

Isso posto, posso continuar. O Mercado Municipal foi inaugurado em 1888, não foi? Foi. Uma obra que – com esforços e teimosia – os Moraes Barros, Manoel e Prudente, e outros entregaram a Piracicaba. Pois bem. Antes de sua inauguração, eu já comia pastéis no Mercadão. Antes de a cegonha bicar meu pedacinho de alma, antes de se pensar em mercado, antes de se imaginar massa de fazer pastéis, insisto: eu já comia pastéis no Mercadão.

Outra coisa: os primeiros imigrantes japoneses, foi Paulo Moraes Barros quem os trouxe a Piracicaba, para trabalhar na fazenda Pau D´Alho. Os irmãos Takaki, João e José, chegaram. Mais tarde, sei lá quando, apareceu o Mário Miyasaki. Posso garantir: antes de o Mário fazer pastéis e se tornar o Mário Japonês, posso garantir que eu também já comia pastéis feitos por Mário Japonês e família, os melhores pasteleiros do mundo.

E tem mais: a família Soledade, lá do Pau d´Alhinho, eu já a conheço desde antes de eles deixarem a África, antes de existir Brasil. No lombo de camelos, os beduínos, meus ancestrais, comiam pão dos Soledade acho que em Gana, em Luanda, não me lembro bem. Sei que, sentados no chão, discutiam qual pão era melhor, se o árabe, se o dos Soledade. E eu comia de lamber os beiços. Com mortadela. Isso, há uns 600 anos.

Ora, bolas. Há quanto tempo conto essas coisas, cantando essas delícias? Comer pastéis no mercado, pastéis do Mário Japonês, pão dos Soledade com mortadela – há quantos anos, com gula e paixão, escrevo sobre isso? Pastéis com garapa, gengibirra com pão e mortadela – quantas vezes cantei e louvei essas especiarias? Em crônicas, eu narrava esses manjares piracicabanos para leitor de Campinas morrer de inveja. Tem campineiro que, até hoje, não sabe o que seja garapa. De intelectuais da Unicamp, já ouvi: “garapa é caldo de qualquer fruta.” Bobagem. Outros, julgando-se sabidos, confundem garapa com caldo de cana. Não é. Garapa é garapa. E quem nunca saboreou pastéis com garapa ainda não viveu.

Até aqui, cantei, contei, proclamei essas delícias, nossos pastéis, pão e mortadela. Ninguém nem tchum pra mim. E fiquei nervoso. Pois, há algum tempo, o Matthew Shirts – cronista gringo, de estilo impecável – pensou ter descoberto a América. E anunciou a maravilha, o encantamento, a grande aventura e o mais refinado dos programas que ele descobriu em São Paulo: comer pastel e sanduíche de mortadela no Mercadão lá deles, reformado e novo “point” dos paulistanos. Já tem piracicabano indo a São Paulo para comer frango e arrotar peru. A galinha do vizinho é melhor. Mas lá tem pastéis inventado pelo Mário Japonês? Tem pão dos Soledade? E garapa? Novos ricos… Bom dia.

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