São Benedito, edis e o alcaide

São BeneditoEstá beirando o martírio a luta de José Mariano – na bravura de seus 75 anos de idade e como presidente da entidade – em defesa da história e do patrimônio da Irmandade de São Benedito. Na verdade, por mais respeito e consideração que autoridades insistam em demonstrar-lhe, nada mais está ocorrendo, até agora, do que um tratamento adequado às antigas casa grande e senzala. José Mariano e seus bravos companheiros estão sendo, na realidade, empurrados de cá para lá, com respostas evasivas e desculpas esfarrapadas, cada qual jogando a responsabilidade para outro.

Ora, a própria Câmara de Vereadores – em trabalho notável pesquisado e divulgado pelo venerando Guilherme Vitti – pode dar testemunho dessa história, dos tempos ainda da escravidão quando negros imploravam, pediam como se direitos fossem concessões. (Veja histórico.) Vítimas de violência e injustiças, eles não tinham outros recursos o senão de buscar a misericórdia do homem branco que, como se sabe, quase sempre tem coração negro, no negrume dos ódios e rancores. Por sua devoção a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário, foram os negros que construíram um cemitério para sepultar os seus queridos naquela área, que fizeram construções de taipa, que construíram muros de bambus e que – muitas vezes ou quase sempre, à margem da própria hierarquia católica, infensa a devoções sincréticas – mantiveram a devoção ao santo universalmente venerado. Insista-se: além de questão religiosa, é um tesouro histórico que está em jogo e que não é assim entendido.

Seria incompetência dos administradores e legisladores, ou seriam ignorância, descaso, desrespeito, desleixo? Piracicaba tem que reaprender a zelar por seus espaços sagrados, independentemente de credos religiosos, mas na sacralidade do espírito histórico, cultural. As cidades são construídas a partir de núcleos sagrados, seja qual for a civilização a que elas pertencem. Pode ser um poste para índios, uma pedra para povo celta, a montanha para tribos – mas, sempre, um lugar sagrado. No Brasil, as cidades surgiram a partir da capela, da cruz de tal forma que se tornaram símbolos intangíveis de uma civilização, independentemente da própria profissão de fé de seu povo. Hoje – haverá quem o diga até mesmo com razão – os símbolos não são mais as torres dos tempos, mas as dos shoppings e bancos. Mas é ilusão de um tempo, pois a alma humana é tecida pela história e não por um simples momento de desregramento moral.

Na homenagem que se fez a Almeida Júnior, o presidente do conselho de cultura, Lauro Pinotti – não sei ao certo se exercendo também a presidência do Codepac – informou, em conversa informal, que o Codepac não tem qualquer oposição a que se regularize a situação do entorno da Igreja do São Benedito, devolvendo – pois não se trata de doar, mas de devolver – a área que pertencia à Irmandade. Portanto, no jogo de empurra-empurra ou de dribles estratégicos, a bola voltou para a Câmara de Vereadores e para o sr.Prefeito Municipal.

Ora, há ruas mortas no entorno da Igreja de São Benedito. E mortas porque desfiguradas por um urbanismo amalucado que, insistimos, começou no segundo governo de Luciano Guidotti. Matou-se o Largo São Benedito, matou-se o jardim, destruíram-se paredes, ocuparam-se espaços de maneira banal, como o estacionamento à frente da igreja. Possibilitar o resgate de uma história, oficializando meios para a histórica igreja ampliar-se, construir seu salão de festas, seu espaço de reuniões – esse tem que ser o compromisso, agora inalienável, de edis e do alcaide. Eles não podem mais lutar contra a história, contra a cultura e, também, contra a fé de um povo que tem, em São Benedito, um guia de luz e de esperança. Não se trata de concessão, mas de refazer injustiças. E injustiça apenas se repara ao se reimpor a justiça.

Neste dia 13 de Maio, esse bravo e velho guerreiro, José Mariano, se dispôs a enfrentar o martírio, acorrentando-se naquele espaço sagrado para tentar sensibilizar a dureza de coração e a perda de inteligência de políticos de uma míope política municipal. Será que vereadores e prefeito irão assumir a responsabilidade de, a partir de um gesto de desespero – como esse de José Mariano – venhamos a ter, em Piracicaba, a repetição da terra molhada de sangue e do suor de negros para se conseguir a reparação de injustiças? Bom dia.

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