Saudoso, saudosista; conservador, conservantista

Mapa mundi old schoolJá me referi, várias vezes, ao que ouvi do próprio Thales de Andrade a respeito de seu livro “Saudade”. Amigos dele contestavam o título do livro. Ora, argumentavam, destinando-se o livro para público infantil, o que entenderiam, as crianças, de saudade?

Thales – professor de escola rural – fez o teste com as crianças, todas iniciantes. O que era saudade? As crianças não sabiam explicar. Mas diziam do que sentiam, de saudade que as acompanha. Pedrinho era saudoso das férias na casa de sua avó. Joãozinho sentia saudade do doce de abóbora de sua tia. E, no fundo da classe, Zezinho respondeu: “Sinto saudade de minha mãe que morreu.” Thales convenceu-se de que saudade todos, até os pequeninos, a temos. E manteve o nome de seu livro, que se tornou imortal: “Saudade”.

Não há, creio eu, ninguém – de criança a idosos – que não sinta saudade de algo, de alguém, de acontecimentos. Os saudosos sentem a ausência do que foi bom, do que os deixou felizes mesmo que por algum tempo. Logo, apenas o infeliz não tem saudade de nada, pois sua vida poderá ter sido construída por amargores e tristezas, por insensibilidades paralisantes. Há a significativa definição – atribuída a Ruy Barbosa – de que sempre me recordo, sobre a qual muitas vezes escrevo: “Saudade é vontade de outra vez.” Ora, só o que foi bom, agradável, tocante é que pode dar “vontade de outra vez”. Quem conheceu o melhor tem saudade diante do pior. É o saudoso.

As palavras – muitas delas – no entanto, sofrem o desgaste do mau uso delas. E banalizam-se ou se revestem de outros significados. A saudade não se confunde com o saudosismo. Nem o saudoso com o saudosista. Este é aquele que quer aprisionar o movimento, que valoriza excessivamente o passado, que quer presentificá-lo, que se agarra a valores não mais aceitos. O saudosismo foi, inclusive, uma mistura de filosofia e misticismo que pretendeu defender a melancolia da alma portuguesa. Se saudade é natural ao ser humano – que é sempre saudoso de algo ou de alguém – o saudosismo é como se fosse uma doença da alma, forjando o saudosista.

O mesmo se dá com a conservação, que é um ato altamente positivo de preservação. Só se conserva aquilo que é bom, que é útil, que faz parte de valores pessoais, comunitários, sociais. Conserva-se o leite na geladeira; conserva-se o medicamento à sombra. E conservam-se princípios determinantes na vida humana. O conservador, pois, é um preservador. Que não deve ser – embora esteja ocorrendo e tem ocorrido – confundido com conservantista. Pois este é o dominado pelo conservantismo, ou conservadorismo, que nada mais aceita senão valores e posicionamentos intocáveis das tradições. Ora, tradição é transmissão, herança e, portanto, movimento que tem raiz. O conservantista se recusa ao movimento e não se abre para novas experiências da vida humana. Não há vida se não houver conservação. Mas há que se rejeitar o que existe de mal, de ruim, de retrógrado até mesmo o que se revela, aparentemente, novo. O novo não é simples novidade, nem modismo. O novo acaba sendo, quase sempre, o antigo bom que se apresenta sob novas formas.

A pressa e a velocidade dos tempos atuais parecem não mais permitir reflexões sobre a vida. Refletir não é lamentar-se. A correria tresloucada dessa era de transição impede vejamos o panorama real, como se estivesse envolto em nuvens que o deformam. Vamos, assim, perdendo o sentido de princípios, de raízes, confundindo-os com simples valores muitos dos quais sempre se alteram. O próprio conceito de valor está desfigurado, confundido com preço. Até pessoas passaram a ter preços, pouco importando se têm ou não valores.

Piracicaba está mergulhada neste caos de conceitos e de significados. Quanto mais alto o preço das coisas e de pessoas, mais elas são valorizadas. No entanto, pessoas não têm preço e coisas existem cujos valores são tão imensos que nada pode comprá-las. O dinheiro fácil, a ganância, a corrupção, o abandono a princípios, a confusão diante de valores alteraram, também aqui, uma compreensão realmente humanística de nossa realidade e de nossa terra.

Somos privilegiados por ser saudosistas, pois temos do que sentir saudade, lembranças há que desejamos conservar e preservar. No entanto, o materialismo insensível faz questão de que essa “saudade que punge e mata” transforme os humanos em saudosistas ou conservadoristas. Amar e querer preservar nossas raízes fundamentais são, para os materialistas cegos, sentimentos de retrógados. E, semeando essa pérfida visão, abriram caminho para se apoderarem de tudo, destruindo, atropelando, não conservando e nem preservando a dignidade histórica de um povo e de uma terra.

Até quando? Bom dia.

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