Savonarola caipira

picture.aspxAs reações, em vez de esmorecem, começam a se organizar em defesa da Unimep e dessa morte anunciada de uma universidade que se recusa a morrer. A cada declaração de Davi Barros confesso ficar temeroso, com receio de não entender o que ele quer, deseja e para onde pretende ir. São tantas as trapalhadas e promessas não cumpridas que ele já comprometeu a Igreja Metodista, que passa por mentirosa a partir das mentiras do diretor geral da instituição.

Nos últimos anos, uma palavra marcadamente de mercado passou a dominar as universidades brasileiras, como que trazidas, a propósito, pelo tucanato atualmente esperneante. É a palavra clientela. Ora, clientes pressupõem uma relação de negócio. E clientela, originariamente, significa freguesia, conjunto de fregueses. Alunos não são fregueses de nada, mas pessoas em busca de formação, de orientação, de conhecimento e, por conseguinte, de futuro. Alunos são, ao mesmo tempo, o futuro de si mesmos e o futuro da nação. Clientes são apenas passageiros. Logo, se universidades se relacionam com a juventude e o corpo discente como uma clientela, é óbvio que elas não podem ser levadas a sério como centros de excelência. Melhormente, elas se põem como balcões de negócios.

O ex-reitor Elias Boaventura, em artigo também aqui em A Província, deixa claro o que pensa também a comunidade piracicabana: “Todos nós defendemos ser imprescindível que a UNIMEP tenha boa saúde financeira, seja superavitária, (…) sem cair neste mar de prostituição em que muitas instituições de ensino superior se encontram.”

Se o silêncio conivente permanecer até mesmo por parte da numerosa liderança consciente da Igreja Metodista, esse escândalo de clientelismo poderá se agravar anda mais, pois Davi Barros desencadeou um plano, agora, de transações imobiliárias que poderá comprometer em definitivo a instituição e provocar um sem fim de ações judiciais, que atingiriam até os seus parceiros comerciais. Havia, ao tempo de Almir Maia, um grande projeto de aproveitamento de parte das terras do Taquaral em empreendimentos imobiliárias cujos lucros deveriam ser aplicados em um fundo de desenvolvimento de pesquisas, para a Universidade. Naquele projeto, estava a Unimep séria, consciente de sua responsabilidade como universidade e não como balcão de negócios. O que é o plano imobiliário de Davi Barros? Para o que se destinaria o resultado da venda de propriedades que poderão ser discutidas em função da destinação que lhes forem dadas? O que significa clientela, quem são os verdadeiros clientes, a freguesia?

Os metodistas são sementes especiais da cultura piracicabana. Já no século 19, a Igreja Metodista de Martha Watts revelava essa consciência universal do conhecimento que apaixonou Prudente de Moraes. A educação verdadeira sobrevive pela qualidade dela mesma. Apenas administrações tirânicas – e, portanto, incompatíveis com a educação – colocam a relação escola-aluno como uma questão de freguesia. É terrivelmente doloroso ver, justamente na Unimep, um retorno medíocre e caipira de Savonarola, o frade que, na Idade Média, tentou “purificar Florença” das mudanças do Renascimento. Foi mártir de suas idéias, mas um censor. Foram de Savonarola as grandes fogueiras literárias, a perseguição às canções carnavalescas. Ele também queria administrar e governar para sua clientela. Foi ele quem estigmatizou Bocácio e Petrarca. Para ele, Florença não poderia ser conspurcada pela arte e pela cultura. Mas Florença – apesar de Savonarola – se transformou em sinal luminoso das artes e da cultura no mundo.

Seria bom alguém lembrar a Davi Barros – que pouco sabe de sua própria terra – que Piracicaba, nos anos 20 do século passado, foi chamada de “Florença Brasileira”. Aqui, a cultura e a educação são intocáveis. Davi Barros está sendo vaiado. Como a Igreja Metodista pode estar surda a tantos apupos, ela que é devedora de gratidão a Martha Watts? Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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