Sem garoa, sem chá das cinco

No dia 25 de janeiro de 2004, quando a cidade de São Paulo completou 450 anos, resolvi ir-me até lá numa das muitas cerimônias de adeus que venho promovendo. Não foi busca de tempo perdido, mas outra das longas viagens por dentro de mim mesmo. Naquele dia, há quatro anos passados, não tive forças ou coragem para fazer o que me aquecia a alma: andar de joelhos pela Avenida São João, aguardando uma estrela de papel prateado voltar a colar-se em meu rosto na Praça da República, ouvindo seresteiros no Largo do Arouche. E, se o tempo voltasse, eu estaria deslumbrado vendo, novamente, a inauguração da Catedral da Sé e do Parque do Ibirapuera, como vi acontecer cinqüenta anos antes.

Pensei em andar de joelhos para, depois, dizer a meus netos: meninos, eu vi. Pois, na realidade, quase perco o fôlego ao me dar conta do tempo que passou, do que vivi, vi, de imagens e cenas que, ainda agora, sou capaz de reproduzir e de descrever. Foi em 1954. E São Paulo completava, em 25 de janeiro, 400 anos. Era o IV Centenário. Eu tinha apenas 13 anos. E vi. É o que me espanta: em janeiro de 1954, com apenas 13 anos, eu vi. Com coleguinhas meus. Saímos daqui e fomos até lá. Como era possível – pergunto-me – crianças irem-se por aí?

Naquele 1954, o mundo da adolescência era mais apaixonante. E, às comemorações de São Paulo, fui por desejo e por sonho e por paixão. Eu tinha saído de lençóis, na rua Costa Ribeiro, em Bauru. Em “Viver para contar”, seu livro de memórias – aborrecido, por sinal – Garcia Marques fala de sua primeira vez de conhecer mulher, ainda criança. E narra, na verdade, aquilo de todos nós, daqueles anos: meninos descobrindo ter asas para ir-se pela vida. Dos lençóis de Marilu, pois, caí na cidade quatrocentona, a nossa São Paulo, ainda a São Paulo da garoa. E a São Paulo do chá das cinco no Mappin, dos passeios ao estilo inglês na Barão de Itapetininga.

Eis pois que, ainda agora, admito e confesso a minha perplexidade, meus sustos e interrogações: como pude estar em São Paulo, na noite do IV Centenário, vendo rojões naqueles céus ainda límpidos, o menino de 13 anos apaixonado por Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Lygia Fagundes Telles? Ainda me lembro da invocação do “Príncipe dos Poetas”, versejando diante da epopéia paulista: “Bandeira da treze listas…” Acho que vivi demais.

Passeava-se de bonde na Avenida São João. O Cine Marrocos era o mais belo das Américas. Mas, maior de todos, era o Cine República. Na rua Santo André – rua transversal à 25 de Março – o restaurante Almanara servia 37 pratos árabes, ao preço de um. No Largo do Arouche, o apartamento duplex de meus tios Arthur e Gin Stolf estava entre os mais chiques. Lá ficamos, meus amigos e eu, em nossos 13 anos. E, assustados, vimos a explosão de luzes anunciando os 400 anos de São Paulo. Foi há 54 anos. E eu me assusto.

Sei e sinto, pois, que deveria andar de joelhos e render graças. E prosseguir em minhas cerimônias de adeus, despedir-me de coisas, de pessoas e de um tempo que já nem mais sei como é. Estou, serenamente, revendo e rememorando tudo, grato por tantas doçuras e deslumbramentos. Vi a São Paulo quatrocentona, tempos passionais de Jânio Quadros e de Juscelino. Vejo essa mesma fascinante São Paulo em seus 454 anos, confusos tempos de um Brasil caótico.

O menino de 1954 é o idoso de 2008. Não há mais bondes, nem os chás das cinco. Acabou-se a garoa, lá se foi a majestade do prédio Martinelli. Sobrevivi. Que pena, ir-se acabando… Tempus fugit. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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