Sem mais Ruths e Enys

Os jovens estranham quando se fala, hoje, em zonas de meretrício. Talvez, por lhes parecer tivessem sido elas, as zonas, de um tempo dinossáurico; talvez por estarem, hoje, livres e abertas, a céu aberto. Moços do passado, no entanto, guardam respeito e até mesmo gratidão à lembrança daquelas casas míticas e misteriosas. E lembranças de Eny e de Ruth, as poderosas.

Há poucos anos, o jornalista Lucius de Mello publicou o “Livro de Eny”, uma história de Eny Cesarino. Guardo o livro em minhas estantes, entre incrédulo e inconformado. Lá não está toda história da mulher que foi uma das mais fascinantes personalidades do então chamado “bas fond” brasileiro, a dama da noite cuja casa se tornou tão famosa como ela própria. Ou mais do que ela. Pois a “Casa da Eny” era o sofisticado bordel que ela montou e manteve na ainda jovem Bauru. Era uma cidade trepidante, o centro ferroviário de todos os passantes e caminhantes, aventureiros e mercadores, sonhadores com algum Eldorado que parecia estar nos cafundós de Mato Grosso ou em terras próximas do “Shangrilá”. Quem pensou em semelhanças com o cinematográfico “far west” estadunidense acho que acertou. Há tão distantes 50 anos, Bauru era algo assim.

Forçada, pois, a semelhança com aquele Oeste de índios e conquistas, Eny sempre pôde ser vista como a dona de um “saloon”, de requintes e sofisticação. O “Livro de Eny” não revelou tudo. Mas, sem hesitação, pode-se afirmar que a “Casa da Eny” – àquela época – foi, sim, o mais famoso e requintado dos bordéis brasileiros. Juscelino Kubitschek narrou, com a fantasia política, a sua opção em busca do Oeste, da previsão de José Bonifácio e da profecia de Dom Bosco. Plínio Salgado já escrevera sobre “A Marcha para o Oeste”. O esquecido Fernando de Azevedo, também: “Um trem corre para o Oeste”. Era a saga brasileira em busca de descobrir o sertão, talvez o grande sertão e as veredas de Guimarães Rosa.

E essas visões ou sonhos ou previsões passavam por Bauru, pela Estrada de Ferro Noroeste , como acontecera no “west” dos Estados Unidos da América do Norte. A “Madame Eny” enxergou antes. Pois, onde houver desbravamento, haverá homens carentes. A “Casa de Eny” foi esse “saloon”. Ou um palácio de cortesã, na evocação da Corte de França. Ela se fez rainha.

O Rio de Janeiro atormentava-se com o “Mangue” e São Paulo – com Jânio Quadros perseguindo prostitutas, fechando o meretrício da rua Itaboca – via surgir o amargor da clandestinidade das ruas Aurora, Victória e adjacências. Naquela “caça às bruxas”, Eny anteviu a possibilidade de uma corte talvez como a de Camelot. E criou, em Bauru, não um prostíbulo, não uma “zona”, mas uma casa. Era a “Casa da Eny”, que tinha seus estatutos pétreos. Sonhos e fantasias, sim. Mas com respeito, por favor. E, enfim, a nova Corte Brasileira – da marcha para o Oeste, da empolgação com Brasília, “a Capital da Esperança” – tinha a sua grande cortesã: Eny. Ela, em Bauru. E, aqui em Piracicaba, sua grande concorrente: Ruth (Yvone) Mansur. Nenhuma história política daqueles tempos poderá ser escrita com honestidade se não mergulhar nas “casas” de Eny e de Ruth. Elas eram íntimas do poder. Em suas casas, o poder se divertia.

Aquela rua Costa Ribeiro de Bauru, onde Eny instalou sua corte, tem, no entanto, história muito menos rica do que a grande história da nossa rua Benjamin, com a “Pensão Royal”, onde imperou Estefânia; do nosso Cano Frio, à frente do Estádio Municipal; das mulheres do Saibreiro, onde é o Jardim Elite e, enfim, da “Casa da Ruth”, no Jardim Brasil, nas cercanias de onde está o Jornal de Piracicaba. Ruth (Yvone) Mansur foi como que uma imperatriz em Piracicaba, aos pés da qual se ajoelharam políticos e empresários, juízes e delegados. Em sua decadência e em seu fim, entregou a casa para a amiga e colega Eny, de Bauru, comandar, retomando os anos áureos. Não deu certo. Eny fracassou. Era o fim de um tempo, o fim da zona, o fim das prostitutas de verdade. As de agora são amadoras.

Por isso, não se fazem mais casas de Eny e de Ruth como antigamente. Azar dos moços, que ficaram sem mistérios para desvendar, sem templos de amor que os abriguem. Já pensaram, poder encontrar um Vinicius de Moraes, um Toquinho, para um bate-papo e um uísque numa mesa da “Casa da Eny”? Ou esbarrar com um Governador de Estado na “Casa da Ruth”? Assim era. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins)

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