Sem perigo de melhorar

TiriricaQue foi uma festa cívica, lá disso ninguém pode duvidar. Festa até com direito a palhaço e celebridades indo para esse templo da democracia, que é Congresso Nacional. Há ainda poucos dias, provoquei leitores a uma reflexão: “E Tiririca, por que não?” Pois, conforme ele mesmo falou e multidões aplaudiram, com “ele pior não fica.” Mas piorou, o que me leva a lembrar da frase profética já nem mais sei se do Ulisses Guimarães, se do Luiz Eduardo Magalhães: “No Congresso, não há perigo de melhorar.” O que não melhora piora.

Comecei a acompanhar política mundial ainda nos meus quatro cinco anos de idade, em plena II Guerra Mundial. Já contei aqui mesmo – em alguma croniqueta do “Fundo do Baú” – quando meu pai e os amigos dele me pediam para espiar a sorveteria do seo Pink, um alemão que ocupava um espaço do café de meu pai, o Café Imperial, bem na esquina da então Igreja Matriz. Seo Pink usava uma salinha no porão da casa e o assoalho de meu quarto tinha uma fresta pela qual eu, se quisesse, podia ver e ouvir o que acontecia. Meu pai e os amigos dele me pediam que eu ouvisse o que Seo Pink conversava com outros alemães que o visitavam. Temiam fosse, o pobre homem, um conspirador. E, por isso, fizeram-me correspondente de guerra já aos meus quatro ou cinco anos. Tudo, pois, começou ali.

Acompanhei a Guerra da Coréia, lendo jornais ao lado de meu pai. E, em 1954, quando Getúlio se suicidou, tomei minha decisão final: ser jornalista, escritor, coisas assim. E se deu o início de uma caminhada pela vida que ainda não se encerrou, que eu luto para dar fim mas não consigo se o preço for a ausência e a alienação. Por isso, o que mais me tocou no dia das eleições – o que mais me levou a grandes reflexões pessoais – não foram os resultados, mas a morte do pai do Aécio Neves. Pois a morte dele me lembrou de Tancredo Neves e, a partir daí, todo um grande filme foi-me rodando pelas recordações e lembranças, filme com figuras extraordinárias, com personalidades marcantes, com protagonistas, homens e mulheres, de quem se podia discordar, mas com respeito. Onde estão os Tancredo Neves, os Otávio Mangabeira, Juarez Távora, Juscelino, Carlos Lacerda, Carvalho Pinto, Auro de Moura Andrade, Pedro Aleixo, Cid Franco, Juracy Magalhães, tantos e tantos outros, onde estão os grandes homens?

Dei-me conta de que o Tiririca também me enganou, na sua afirmação de que, com ele, “pior não fica”. Fica pior, sim. É como a Lei de Murphy: quando tem que melhorar, piora. E, quanto ao Congresso Nacional brasileiro, a lição sei lá se de Ulisses, se do Luiz Eduardo parece, ainda agora, a mais sábia: “Não há perigo de melhor.” Bom dia.

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