Ser esperto, levar vantagem

picture.aspxLembro-me de, numa das últimas eleições, uma empresa – especializada em novos detectores de mentiras, para uso particular – ter analisado os discursos políticos na televisão. E concluiu pela grande probabilidade de todos os candidatos terem mentindo. Mas isso não era e nunca foi novidade. Pois uma das definições de política é justamente a de ser “a arte da dissimulação”. Quem dissimula mente de alguma forma. É como o palhaço do circo, o ator no palco: dissimulam e cumprem seu papel. Esperar do político a revelação da verdadeira face é tentar fazer, da política, instrumento de santificação. Estados beatíficos são para santos. Políticos são homens práticos em busca de resultados. De certa forma, são comerciantes. Vendem ilusões em troca de votos. Como o vendedor que anuncia maravilhas de um produto apenas banal. Comerciantes e políticos têm muito em comum. Voto e lucro são valores semelhantes, quase iguais.

Por isso, ainda hoje espanto-me com o meu próprio espanto e o de pessoas estranhando ou mostrando surpresas com o que acontece na política brasileira. Os discursos de jornais e revistas e de analistas e também do povo fazem-se, quase todos eles, numa tonalidade em que não se distingue inocência de hipocrisia. Há um estranho espanto, por exemplo, ao se ver a grande preferência do eleitorado por figuras cuja moralidade pública foi colocada em dúvida há muitos anos, entre eles, Paulo Maluf, Fernando Collor, Roriz e alguns também em Piracicaba. São o quê, esses fricotes moralistas: tolices, farsas, hipocrisias, fingimentos, inocência ou simples ignorância?

É preciso admitir que tais políticos e gente do mesmo padrão representam o que o Brasil tem de mais representativo diante do estilo de sociedade que escolhemos ou permitimos surgisse. Quando o pobre Gerson, campeão mundial, foi usado para anunciar ser “preciso levar vantagem em tudo”, poucas vozes ousaram discordar dele. Da mesma forma, sempre houve e ainda há os que aceitam o “rouba mas faz”, estilo de governar atribuído aos “adhemaristas”, mas com discípulos em todos os quadrantes nacionais. Entre nós, na vida provinciana, sempre houve quem defendesse a tese de que “tudo o que é legal é moral”. Mas não é.

Ora, a juventude brasileira entendeu, compreendeu e está tentando viver o que lhe foi ensinado. Essa nova ética se revela no que os moços dizem uns para os outros: “Seja esperto, rapaz.” Ser esperto, levar vantagem, vencer por vencer, não ter importância roubar desde que tenha êxito – é a escolha imposta à Nação diante do silêncio, do comodismo e até mesmo da cumplicidade da maioria dos tais “formadores de opinião do Brasil”, entre os quais se incluem, também, pais e mestres. Como se estranhar, portanto, que multidões votem em candidatos tidos e vistos como “espertos”?

Incomoda-me o que venho sentindo: passei a desconfiar de quase todos os que falam em ética. De tão banalizada, a palavra me deixa em estado de alerta. De que ética falam? Qual a ética que defendem ou que propõem? Muitos crimes já se cometeram em nome da Pátria, da Família, de Deus, da Liberdade – e, agora, também em nome da Ética. Essa gente vai governar o quê, legislar sobre o quê e para quem? Antes de escolher responsáveis por um governo, é preciso construir a nação a ser governada. Ora, se escolhemos, desgraçadamente, um Brasil de espertos, pensamos ser inteligente e ético votar em gente esperta. E se explica, então, que até mesmo algumas instituições escolham espertos ativos e simuladores experientes para dirigir universidades. Lucro é lucro ´tem sido, também, uma questão de fé. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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