Serviço público, vegetarianos e carnívoros

picture (17)Na década de 1950, o escritor e pensador inglês Aldous Huxley excitou a intelectualidade mundial com suas experiências com drogas. Usando a mescalina, Huxley dizia ter vivido experiências místicas. E sua obra ficou pontilhada por visões delirantes. O uso do ácido lisérgico despertou-lhe percepções alucinadas. E, a partir dele, os alucinógenos enlouqueceram a juventude dos Sessenta. De “beats” a “hippies”, de Jack Kerouac aos Beatles, tudo aconteceu alucinadamente.

Na vida caipira, nossa geração foi não sei se mais prudente se mais medrosa, pois ácidos e drogas pesadas não nos atraíram, nem mesmo a maconha. Fomos a geração do cigarro e da bebida, quando muito de algumas misturas para espantar o sono em véspera de provas escolares: café com Coca Cola, ou com Melhoral, um que outro comprimido de Pervitin ou Dexamil. Ficávamos feito zumbis, olhos arregalados. E, depois, a depressão.

Num dos livros que escrevi, fiz uma experiência com bebida. Assustei-me. Os mesmos personagens variavam de humor e de comportamento conforme o tipo de bebida que eu ingeria. Nos capítulos em que me entupi de café, eles eram ativos, ágeis, dispostos. Em outros, bebi cerveja. E eles ficaram alegres, leves, divertidos. Com vinho, tornavam-se figuras melancólicas, românticas. E, com destilados – vodka ou uísque – faziam-se depressivos, agressivos, mórbidos. Dois amantes, no livro, quase se suicidaram quando escrevi sobre eles à inspiração do uísque. Precisei usar cerveja para os apaixonados voltarem a se amar com alegria.

A vida humana também depende do que se come ou se bebe, de sais e hormônios. Somos carne. Lembro-me de um amigo – homem pacato, metódico – cuja vida conjugal era exemplar. Um médico lhe pediu exames de laboratório e se descobriu, então, estar baixo o nível de testosterona, lá dele, de meu amigo. Tomou umas injeções. E, pouco depois, parecia louco furioso, incontrolável e insaciável. O casamento ruiu. A virtude conjugal dele dependia do nível de testosterona. Viver é uma festa. Pode ser.

Aprendo muito com os alimentos. Por exemplo: quando me alimento apenas de frutas, legumes e verduras, fico meio que parado, daquele tipo zen. Se como quibe, filés apimentados, molhos picantes, fico que fico agitado, ativo, doidão. Daí – eureka! – minha conclusão profundamente filosófica, acho eu: quem se alimenta só de verduras fica meio paradão, imóvel; quem come carne é agitado. As coisas têm lógica. Ora, um pé de alface não sai do lugar, tem que ser colhido, apanhado. Mas boi, frango, porco, esses andam. Logo, quem come carne anda, é ativo; quem come verdura senta, é passivo. Elementar, caro Watson.

Essas coisas eu as escrevi, há alguns anos, tentando explicar algumas paralisias em secretariados governamentais. A resposta paralisante era simples: ou gente com nível baixo de testosterona ou muito vegetariano. Minha sugestão continua a mesma da época: que se apurasse a situação e, então, resolva-se: vegetarianos ficariam no gabinete, pensando, filosofando, planejando. E carnívoros iriam para as ruas, encontrar e tapar buracos, consertar viadutos. Quando há paralisias não tenhamos dúvida: ou é testosterona baixa ou é salada demais. Conclusão de quem deseja ser gentil.

Se pé de alface não caminha e boi anda, que vegetariano fique em gabinete. Vejam o Lula, churrasqueiro de marca: o homem não pára. Se é bom, isso já não sei. Bom dia.

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