Sexualidade, causa e efeito

picture (21)Não consigo fugir às muitas imagens de Fausto. E perturbo-me. A humanidade permanece nele. Mas em qual Fausto? Evito pensar.

E, então, surge o Frankenstein, um Fausto à sua maneira. Vejo laboratórios, monstros, figuras esquálidas, o ser humano desfigurado. Tento não pensar, mas diante de Fausto e Mefisto, de pedaços do monstro de Frankenstein surgem antevisões apocalípticas, descrenças, desencantos. O ser humano, o quê, quem é?

Há alguns anos, japoneses criaram, em laboratório, uma ratinha com duas mães. Não houve intervenção do macho. Ao óvulo maduro de uma fêmea, acoplou-se o óvulo ainda imaturo de outra. Deu certo, após mil tentativas. E nasceu, então, uma ratinha sem pai. Prescindiu-se do macho. A ciência insiste no objetivo: anular o macho da criação, dispensá-lo, como se esgotada a imagem ancestral – irreal mas simbólica – de a fêmea nascer da costela do homem. O homem – para uma parcela dos loucos – é descartável. A não ser – como já se faz anedótico – para empurrar carrinho em supermercado, trocar pneus do carro da abelha-rainha, mudar lâmpadas, bater martelo… A anedota é trágica.

Paradoxalmente, porém – apesar de até ratinha nascer sem pai – explodem marchas femininas reivindicando o direito ao aborto. Mas aborto relativo. Não o de bebês de proveta ou de barrigas de aluguel. Apenas dos nascidos de união entre homem e mulher. Logo, ainda há mulheres interessadas em homens. Assim, por mais tentem, os laboratórios, clonar pessoas, criar bebês de provetas – homem e mulher continuam amando-se ou apenas fazendo sexo. E ele, fecundando-a com sua semente. E ela, querendo abortar o fruto do encontro seja lá de amor, casual, erro de cálculo ou de pessoa. Amor e sexo, qual a diferença?

Essa angústia, Proust colocou-a na alma de seus personagens, Odette e Swann. Amar era “faire cattleya”, a palavra misteriosa: para Odette, apenas prazer; para Swann, amor. Mas eram homem e mulher, numa atração que dispensava laboratórios e da qual – por simples prazer, por amor – poderia advir frutos.

É imemorial, pois, homem e mulher gerarem filhos. Por isso, deveria assustar o paradoxo: enquanto laboratórios produzem seres vivos sem macho, mulheres fazem passeata pelo direito de abortar filhos obtidos de machos. É estranho, pelo menos para mim. De um lado, ignora-se o sexo. De outro, quer-se sexo sem responsabilidade.

Pois sexo implica responsabilidade, dever que sonegamos aos nossos jovens. Se há um direito à vida sexual, há um dever diante das conseqüências. A indústria pornográfica não mostra que sexo pode gerar filhos, na lógica perversa do sexo pelo sexo. Mas a lógica é outra: se dois garotos não têm condições para cuidar de filhos, não podem ter o direito a uma vida sexual livre e irrestrita. O aborto enfrenta o efeito. Da causa – a sexualidade humana banalizada – continua-se fugindo.

Recuso-me, porém, a comentar aborto. Para mim, é assunto exclusivo de mulheres. Homens não sabem o que seja ter um ser vivo no ventre. Dá-lo à luz ou matá-lo, há que ser decisão unicamente delas. Ao homem, negou-se o milagre de avaliar a dimensão da maternidade.

De minha parte, angustio-me com Fausto. Que está vivo em suas mil faces e versões. Mas sempre pactuando com Mefisto. Quando se fala, hoje, em “mundo fáustico”, de experiências para o bem e para o mal – como é esse “homem faustiano”? Seria um Fausto à imagem de Hitler ou à de Goethe? Por enquanto, há apenas frankensteins. Bom dia.

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