Silêncio dos homens

pictureAinda acredito em que homens não deveriam opinar quanto ao mistério da vida que se realiza na mulher. Nem os deuses que colocamos prisioneiros de religiões têm o direito de fazê-lo. Diante do grande mistério feminino, até eles, incluindo o abrahâmico, não falam de suas mães. Contam que filhos divinos nascem de mulher virgem, assexuada. O sexo sempre amedrontou o mundo. E demonizou a mulher. Ainda hoje.

Como pode, um homem, dimensionar o que seja o palpitar de um útero ao germinar de um filho, senti-lo crescer-lhe no ventre, uma vida gerando-se dentro de si mesmo? Sabe o quê, um homem, desse milagre assombroso de o leite nascer no próprio corpo, de a carne alimentar-lhe o filho – não importa haja guerras, carestia, pestes, hecatombes? Desse milagre de a vida estar num sacrário interior, o homem nada sabe, pois a vida ele a semeia, espalha-a, esparrama-a .

Há asssuntos intocáveis, tabus. O aborto é um deles. E, na já longa caminhada, duvido haja argumentos ainda não ouvidos, tanto a favor quanto contra o aborto. Mas não sei, não consigo emitir qualquer opinião, uma impotência irreversível diante de um mistério que me espanta e me deslumbra: a gravidez. Quem, a não ser a mãe, pode decidir sobre o ser que lhe pulsa no ventre? Quem tem esse direito, que pastor, que legislador, que homem?

O Brasil volta a assistir, após a questão dos embriões, às apaixonadas discussões sobre aborto, especialmente quanto a fetos com anencefalia, fetos sem cérebro. É mais uma página de horror e de dor. Num estado laico, numa democracia republicana, colocam-se argumentos de ordem exclusivamente religiosa – quase apenas dogmática – infelicitando ainda mais a vida de mulheres já feridas de morte por gerarem um filho que não existe. Religiosos, autoridades protestam: não tem cérebro, mas tem vida. De que vida falam? O que é vida, numa sociedade que cultua a morte? Quem entende mais de vida do que a mulher? Quem são os juízes, os acusadores, os sacerdotes do templo para falar em vida, quando a aprisionam em dogmas? Vida, conforme quem, conforme quando, conforme onde?

No mistério da gravidez, a deusa criadora é a mulher. Se homem algum avalia o que seja a alegria de gerar a vida, não creio haja homem capaz de imaginar a dor de uma mãe diante da perda de um filho, a angústia de uma decisão quanto ao ser que lhe palpita no ventre. Tenho visto religiosos, juristas, alguns simples palpiteiros, todos eles acabrunhados quando tentam justificar o porquê de exigirem que um feto sem cérebro continue vegetando. Nem eles conseguem se convencer do que dizem. E, no entanto, falam, como se fosse uma sina maldita, essa de tornar cada vez mais dolorosa a vida de quem ousa pensar e agir conforme seu próprio coração. A mãe é a juíza única dessa decisão.

Sinto medo de opinar sobre isso, medo até de pensar. Mas tenho uma certeza quase plena: homens devemos nos calar. Nem os céus têm o direito de decidir por uma mãe. Bom dia.

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