Simpático e sedutor, mas guerreiro.

A maioria dos brasileiros, creio eu, torceu para que Barack Obama vencesse as eleições dos Estados Unidos e se tornasse presidente daquela república, sucedendo ao incrível George W.Bush. Seria como, num filme de faroeste, o mocinho acabar vencendo o bandido. O fato de ser negro despertou ainda mais simpatias, além de sua esfuziante personalidade sedutora. Obama surgiu como uma esperança de tempos mais decentes, além de testemunho vivo da possibilidade de as categorias sociais mais sofridas chegarem ao poder. Lula o conseguira aqui. E Obama conseguiu lá.

Poucos, no entanto, entenderam quando a academia sueca lhe concedeu o Prêmio Nobel da Paz. Por quê, quais os méritos que justificariam aquele que tem sido um dos prêmios mundiais mais respeitados, apesar de suas características políticas acentuadas nos últimos tempos? Nada justificou Obama o tivesse recebido, a não ser as declaradas intenções de paz, de dar um fim às guerras estúpidas promovidas pelos estados Unidos, além do critério puramente político da academia.

O próprio Obama se surpreendeu e, ao receber o prêmio Nobel, fez muito mais uma justificativa da importância das guerras para a manutenção da paz do que da própria paz como instrumento e bem para evitar as guerras. Na verdade, Obama se sabia prisioneiro das estruturas de poder dos Estados Unidos, dos altíssimos e nunca claramente revelados interesses econômicos, geopolíticos, dos apetites dos imensos e poderosos conglomerados empresariais e, em especial, da fantástica indústria das armas.

A visita de Barack Obama ao Brasil passa a ser marcada por uma nódoa que se não apagará diante da história. Pois foi aqui que ele, pela primeira vez, se revelou presidente guerreiro, de uma nação guerreira e belicosa, deixando-nos um travo amargo de desrespeito e falta de consideração. Pois foi o Brasil – juntamente com China, Rússia , Alemanha e alguns outros países – que se abstive, na ONU, de apoiar a farsante zona de exclusão aérea sobre a Líbia, pretexto para invasões e morticínios. Até hoje, não se sabe quais são os rebeldes que enfrentam o poder maléfico de Muamar Kadafi, quem os apoia, quem os financia, a origem das armas que possuem. E Kadafi é, há 40 anos, um dos mais sanguinários tiranos do mundo, com proteção dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Itália, que agora brincam de democracia e de direitos humanos.

Foram os Estados Unidos que patrocinaram o ingresso da Líbia, e do ditador Kadafi, na Comissão dos Direitos Humanos da ONU, o que ocorreu há apenas pouco tempo. A França e a Itália mantêm fortes relações diplomáticas e comerciais com Kadafi, os Estados Unidos também. E, de repente e após tantas décadas, eis que, sob o comando de Barack Obama, essa coligação se mostra indignada com ofensas e violações a direitos humanos que se sucederam com a complacência deles também.

No Rio de Janeiro, Barack Obama desempenhou a mais hipócrita das operações belicosas já deflagradas, uma farsa que entrará para a história e que se contará tenha acontecido no Brasil, em desrespeito a todos nós. Pois foi daqui que, sorridente e simpático, Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz, ordenou fosse a Líbia atacada, com o sofisma pérfido de que a ação fora determinada por uma coligação de países, incluindo duas caricaturas de estados do mundo árabe. Se era uma coligação, por que a ordem foi dada por Obama? E por que ele o fez aqui no Brasil, onde nos negamos a apoiar violação de outros países ou a guerra como solução? O simpático guerreiro, elogiando o Brasil interesseiramente, mostrou-se um visitante deselegante, desrespeitoso, ainda que sedutor e risonho.

Bush teria feito melhor, pelo menos com a sua brutalidade sincera de Brucutu. Bom dia.

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