“A sociedade é culpada.”

Ministro Marco AurélioQuando Pelé – há algumas décadas – falou que “o povo não sabe votar”, o mundo pareceu cair-lhe sobre a cabeça. O grande craque – na sua simplicidade – punha o dedo numa ferida verdadeira que, no entanto, incomodava a todos. Repetia-se a lenda do menino que foi o único a dizer estava, o rei, nu.

Agora, o Ministro Marco Aurélio Melo – em corajosa entrevista a uma revista semanal – declara, sem qualquer receio, a mesma verdade: “A sociedade é culpada”. E culpada exatamente por escolher representantes medíocres, despreparados, corruptos, gananciosos. Por isso, quando se fala que “o povo tem os políticos que merece”, fala-se uma outra verdade cristalina. A democracia brasileira não passa de um arremedo, apesar dos que, por interesses próprios, a proclamam. Democracia é muito mais do que o direito de votar, a rotatividade do poder, a liberdade de ir e vir, de expressão. Tem que beneficiar a todos e não, como continuamos vendo, ser privilégio apenas de alguns. No Brasil, confundimos democracia com economia de mercado. E isso é infame.

Não há mais como disfarçar: a classe política está absolutamente desmoralizada. E – volto  a insistir – não adianta nem mais falar em nobres exceções, pois estas nada mais significam. Tomemos apenas dois exemplo: Eduardo Suplicy, Pedro Simon. São políticos reconhecidamente honestos, idealistas, dignos dos votos que receberam. No entanto, são vozes perdidas no deserto de misérias políticas no Congresso Nacional. Os bons são esmagados e, por isso, quase sempre desistem. Isso significa que as estruturas político-partidárias do Brasil estão completamente degeneradas, numa “ação entre amigos” semelhante aos entendimentos das máfias que se espalham pelo mundo.

Ora, não podemos ter a mínima esperança de uma Reforma Política se esta se realizar com os mesmos políticos que aí estão. Apenas loucos colocam raposas para cuidar do galinheiro. A reforma, se acontecer, terá que vir da sociedade civil, num ante-projeto elaborado pelas mais diferenciadas categorias sociais, pela “intelligentzia” brasileira que está nas universidades e entidades sociais. Política é algo nobre demais para estar em mãos de políticos, especialmente esses que nós mesmos elegemos.

Nosso frágil modelo democrático – além de seus vícios estruturais – peca pelo anacronismo. Mantemos estruturas ainda do Império. E vícios antigos – como a doação de sesmarias, de capitanias hereditárias – permanecem vivos, com outros nomes e outras técnicas. A política partidária tem donos. E, por isso, qualquer eleição nasce eivada por vícios de origem, pois votamos em pessoas indicadas pelos donos do partido ou neles próprios. O direito de escolha está subordinado, pois, a opções que já nos vem preparadas como um simples prato feito.

A “sociedade é culpada”, sim. Pois tem colocado interesses grupais acima dos coletivos, como está caracterizado no próprio Congresso Nacional. Não há “representantes do povo”, mas de grupos: bancada evangélica, bancada ruralista, bancada sindicalista, bancada empresarial, bancada da indústria farmacêutica, todas elas protegidas por rebotalhos de partidos políticos, criados às dezenas para impor, ao Executivo, negociações nem sempre decentes.

Estamos sem líderes, pois os poucos que existem são prisioneiros das barganhas político-partidárias. A solução mais rápida estaria em se iniciar a mudança a partir do município, que se tornou apenas apêndice do Estado. O município tem – se houver vontade política e seriedade cívica – condições de propor soluções próprias. A começar pela educação, pela civilidade, pelo espírito público. O município tem entidades e organizações capazes de impor aos políticos – e de exigir deles – o exercício verdadeiro da representação que lhes outorgada.

Se “a sociedade é culpada” é ela própria que deverá redimir-se. Bom dia.

2 comentários

  1. Rubens Morandi Junior em 14/02/2014 às 13:17

    Olha faça essas as minhas palavras, muito bem escrito o Brasil precisa de reforma política, e feita da forma e por quem esta descrita nestas linhas
    Mil parabéns, ainda tenho esperança que um dia consigamos este feito.
    Para isto precisamos de união das pessoas que tenham esta idéia e não se contaminem pelo poder corrupto.

  2. Delza Frare Chamma em 15/02/2014 às 13:52

    Vou me permitir ser um pouco a advogada do diabo e meter minha foice nessa análise feita pelo amigo Cecílio. Ele afirma ser a sociedade culpada e eu defendo a tese de que a sociedade é vítima de um regime que a precede e responde por sua forma de agir. Em primeiro lugar lembro que a sociedade é constituída em acordo com as possibilidades do momento histórico como nos alertou Marx. A sociedade mundial, com poucas exceções, é fruto do de um regime de produção capitalista, onde os conceitos de cidadania, democracia e consciência política foram aos poucos substituídos pelos conceitos de consumo, competição, empreendedorismo e do Estado Mínimo. Acrescente-se a isso o pensamento único neoliberal disseminado no mundo pelos líderes mundiais, Reagan, Thatcher, além do carismático papa João Paulo II. Como uma sociedade onde a educação, a nível de estados e municípios é excludente pode formar o grau de consciência que exige acesso à cultura? Antes dos seus últimos doze anos de governo, o Brasil percorreu caminhos desconhecidos e que fizeram com que toda uma nova geração tenha perdido a referência do passado. Era um País deprimido por um histórico complexo de vira-lata e caracterizado por enorme desigualdade social crônica e uma inserção nula na política mundial. Como exigir dessa sociedade que, de repente adquira a consciência política que a mídia e as elites passaram 500 anos lhe negando? O povo está vivenciando um processo de crescimento econômico e social e vem sabendo dar respostas aos que continuam a tentar submetê-lo. E a resposta que o momento pede poderá ser dada se as elites pararem de barrar a proposta de nossa presidenta por uma Reforma Política, convocada a partir de uma Assembleia exclusiva e antecedida por um plebiscito popular. O medo de que isso aconteça prova que a sociedade não é a culpada. Culpados são as elites e a mídia conservadora.

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