Sucessão e futebol

PSDBAo que consta, Maquiavel não frequentou universidade e os seus foram estudos apenas formais da época. O mesmo haverá de se dizer do Cardeal Mazarino. Ou de líderes populares carismáticos, quase todos homens intuitivos, animais políticos. Lula é um animal político. E sua intuição, seu faro, sua habilidade de manobras e facilidade para realizar, equacionar e interpretar o jogo político se revelam cada vez mais apurados. Por outro lado, o tucanato – ou a Ceia dos Cardeais, como já são chamados suas lideranças principescas – tropeçou em suas vestes rendadas e sapatos altos. A sucessão presidencial tornou-se um jogo de radicalizações, no melhor estilo das velhas fórmulas políticas, uma relação entre amigos/inimigos.

A filosofia futebolística de Lula parece ter dado certo: de um lado, corintianos; de outro, palmeirenses; Flamengo VS. Fluminense. E, portanto, um jogo de paixões, pois jamais se poderá imaginar um palmeirense torcendo por um corintiano ou vice-versa. E, muito menos, um flamenguista torcendo pelo Fluminense. Pois essa visão futebolística, Lula acabou levando-a para a política sucessória de forma que não haverá mais argumento racional para se avaliar qualidades e deficiências dos candidatos: tucanos jamais votarão em Dilma, seja lá quais forem os argumentos; lulista jamais votarão em José Serra, não importa o que ele possa ter de bom ou de mal.

Quando eleições se transformam em pura paixão, nada mais há para fazer a não ser aguardar a evolução dos sentimentos e da passionalidade, que se vão refletindo nas pesquisas de tendências do eleitorado. Radicalizar significa congelar opiniões, colocando-as ao sabor muito mais das paixões do que de qualquer argumento de racionalidade. Foi assim com Adhemar de Barros e Jânio Quadros; com Getúlio Vargas, o líder maior do populismo, e o Brigadeiro Eduardo Gomes, um dos patronos do tucanato. Foi assim entre socialistas e fascistas, entre comunistas e nazistas, entre peronistas e antiperonistas.

Nem mesmo as bandeiras anticorrupção estão mais valendo, pois nenhum partido mais tem o direito de usá-la, tal a disputa para se dimensionar qual dos tantos mensalões foi o mais corrupto: o do PSDB, onde tudo se iniciou; o do PT, que não deveria ter acontecido; o do DEM, que apenas repete o antigo PFL; o eterno estar no muro do PMDB?

A própria imprensa está perplexa com a ciranda-cirandinha proposta por Lula que levou a paixão ao jogo sucessório. Que argumento, que articulista, que veículo conseguirá fazer com que um tucano vote em Dilma? E como mudar o voto lulista em favor de Serra? A imprensa irá apenas cumprir sua missão de tomar posicionamentos ou de fingir imparcialidade, essa abstração que não existe na vida real. Mas já se percebem sinais de desconsolo, de cansaço, de desânimo no ninho do tucanato, transformado em verdadeira casa de mãe Joana, ou numa tribo com muitos caciques e poucos índios.

Lula, treinado na política sindical, levou sua experiência à política partidária e, até aqui, se impôs. Tendências partidárias ou por pessoas tornaram-se paixões futebolísticas. São paulinos, vascaínos, santistas, botafoguenses precisariam unir-se integralmente para compor uma terceira força. Mas, por enquanto, há apenas Corinthians VS Palmeiras, Flamengo VS Fluminense. O vencedor será o da torcida maior, não o do melhor time. Lula merece um outro título: Maquiavel dos Trópicos. Bom dia.

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