Suelto, retorno eterno

Daqui a alguns dias, A Província ingressará na sua fase eletrônica adulta, a do “jornal fidalgo”, aquilo que fomos em nossa atrevida iniciação quando da fase impressa. A pretensão era de unir o belo com o objetivo e o novo, uma forma, portanto, clássica de encarar a vida. E de estar no mundo. Ainda é o que nos anima

Quase, nesta madrugada, cedi à tentação de referir-me, ainda outra vez, ao “eterno retorno”, que, mais do que de Nietszche, talvez seja proustiano, não sei. Sei que há o retorno. E que ele não se faz em relação ao tempo e ao espaço estabelecidos pela ciência humana, com limites e regras convencionais. O retorno é eterno no sentido do homem diante de sua origem e de seu destino. De onde e para onde?

Em A Província que se aproxima, não me dei o direito de – mas sou impelido a – estabelecer idas ou vindas, de estar no presente ou de resgatar passado, sem a tolice pretensiosa de antever futuro. Apenas cedi, acedi e me rendi: se houve missões anteriores, há a missão de agora. As de antes, foram de lutar, de fazer, de romper e de tentar construir. Agora, a missão é a de observar, como aqueles anciãos que, no alto da montanha, olhavam as aves que, indo e voltando, tinham coisas a dizer, os augúrios. Estes, augúrios, estão no ventre das coisas. E no aviso das aves, que avisam. Ouvir o que dizem os céus e, então, contar, eis a missão.

Há gente nova em A Província. Eles têm a missão de receber a herança, a “traditio” – transmissão, princípios – para construir o verdadeiro, que é eterno e imutável. A novidade passa. O novo permanece, como essa eternidade da “boa nova”, o evangelium.

Neste próximo mês de agosto de 2008, a coluna “Bom dia” completará 43 anos de existência. Ela nasceu, conforme já contei, da minha necessidade pessoal e absolutamente íntima de – na guerra jornalística daquele terrível ano de 1965, de coturnos e de militares truculentos – preservar-me, na alma, de todas as formas de corrupção. Dizer bom dia era um recurso irônico para, na verdade, dizer o que Françoise Sagan dissera em seu livro: bom dia, tristeza. E por dizer bom dia todos os dias, acho que sobrevivi. A tristeza morre diante da esperança.

Eram pequeninos escritos, rápidos, conhecidos como sueltos, os soltos, os solos, solo de solidão. E de contemplação. Eis, pois, que – diante do que iremos oferecer a Piracicaba – retomarei o lugar no alto da montanha, ouvindo avisos de aves avisando. E voltarei a escrever sueltos, agora ainda mais solitáro. Por exemplo, comentar toda essa crise da Unimep. Será simples, sem conflitos, sem atritos. Seria, apenas, perguntar qual a semelhança ideológica entre a Igreja Metodista de Davi Barros e os escândalos que envolvem a igreja dita protestante do soit-disant Bispo Macedo e do casal Hernandez, a Universal e a Renascer, esse estelionato religioso que se enriquece impunemente no país. No suelto, seria simples a reflexão, simples a indagação: a Igreja Metodista de Davi Barros está fiel a Wesley e a Martha Watts ou, vivendo seus tempos de luxúria e de gula, aderiu à farsa evangélica, mas vitoriosa economicamente, de seitas como as de Renascer e Universal, que seguem Macedo e os Hernandez?

Em sueltos, perguntar também não ofende. Bom dia e até lá. (Ilustração: Araken Martins.)

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