Tempo da utopia

picture (36)O socrático “sei que nada sei” precisa ser, penso eu, melhor explicado. Não é bem assim. Na realidade, o sábio “sabe que não sabe”. E o tolo “não sabe que não sabe”. A diferença é crucial. Disso resulta que, como sábios não falam, somos obrigados a ouvir apenas tolos que não sabem que não sabem. Sinto-me entre eles, todo confuso. Pois, às vezes, “sei que não sei”; em outras, acho que sei; quase sempre me comporto como quem não sabe que não sabe. E escrevo besteiras. E ruborizo lembrando de Lao Tzé: “Os que sabem não falam; os que falam não sabem.”

Ora, olhando a vida pelo farol de popa – capengando, aos tropeços, com marcas e cicatrizes – começo a entender coisas que, antes, eu não entendia. A burrice da mocidade toda feita de hormônios deve bloquear a inteligência, sei lá, tão distante a vejo. Hoje – não entendo se num processo contemplativo, se de paz interior, se de aceitação da finitude – sou impulsionado a rever quase tudo. Já há alguns anos, tenho confessado que – ao contrário de amigos de minha idade – eu, se pudesse recomeçar, faria quase tudo de maneira diferente. Eles, amigos, juram que, em podendo, voltariam a fazer tudo exatamente como fizeram. E eu me assusto, tantas as coisas que eu não repetiria, tantos os pedidos de perdão que tenho a fazer, tantas as falsas verdades em que acreditei, tantos ranços inúteis, tantos desamores amargurantes. Que tolo seria eu, em os repetindo?

Ora, em processo natural de revisão, tenho sido levado, já há muitos anos, a releituras. Fiz alguns cálculos otimistas e cheguei à dolorosa conclusão de que, na melhor estimativa, em 60 anos de leitura – contando desde minha alfabetização aos seis anos – não li além de cerca de três mil livros. E fui e ainda sou leitor voraz. Ora, o que se aprende com tão pouco? E com agravantes: há livros que releio periodicamente, ora por não tê-los entendido em vezes anteriores, ora por começar a entendê-los melhormente conforme o tempo passa. Desde 1964, tento ler e entender o “Ulisses” de James Joyce. Ainda não vou além das primeiras dez páginas.

Outros, no entanto, me enriquecem e me embevecem a cada releitura. É como se, viajando de trem, passasse diante dos mesmos locais em diferentes estações do ano. Conhece-se a paisagem, mas ela se altera na descoberta de detalhes antes não percebidos. Deve, o mesmo, dar-se com o olhar de cada dia nos canteiros do jardim: sempre há belezas novas. Agora, meu encantamento está com Antônio Vieira, o esquecido, e seus sermões. Envergonho-me, lendo Vieira, de dizer-me escrevinhador. E me envergonho ao reler “A Utopia”, de Thomas Morus. O que tinha, Morus, na cabeça para erguer aquela catedral? Ou era no coração, o que ele tinha de utópico, o seu lugar-nenhum, o lugar irreal que, no entanto, pode existir? E, no entanto, há quem pense que, por ser irreal, o irreal não exista.

Escrevo-as, essas coisas de coroca, por estar querendo criar a minha Utopia, por que não? Tão feias estão as coisas, tão ruins, tristes, amargas, equivocadas, banalizadas, rudes, vulgares que qualquer marcha-a-ré, qualquer retorno, qualquer retomada de posição podem dar respostas ao que parece não tê-las. Ou tirar pedregulhos que facilitem enxergar uma réstia de luz ao final do túnel. Eu começaria, em minha Utopia, pela busca urgente, absolutamente urgente, do que seja o casamento, uma redefinição de família e, então, da retomada do ser humano.

Enquanto penso, finjo entender Lao Tzé: “Os que sabem não falam; os que não sabem falam.” Bom dia.

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