Tempos da professorinha e de amor

pictureÉ-me impossível não lembrar, quando do dia dedicado aos professores. A primeira professorinha é, na verdade, também um grande amor, o primeiro.

Ela era linda. E foi o meu encontro com o amoor. Bastou-me um olhar, um único. Quem pode esquecer-se do primeiro raio de sol? Ou da descoberta da primeira estrela pendurada na amplidão? Aconteceu-me no coração ainda pequenino, o peito sacudido por galopes. Foi isso: via-a e galopou-me o coração. Ela era linda.

As freiras passavam pelo pátio em seus hábitos negros, vultos fantasmagóricos. Eram silenciosas e impunham silêncios. No patamar da escada, fulminando as crianças com um olhar gélido, a diretora como que destilava ódios, a alma como que feita de fuligens. Irmã Rosa, o nome dela, do terror, como se, da rosa, tivessem sobrado apenas espinhos. Sem pétalas, sem perfume. Perfilados, esperávamos o raio que viria do céu, o inferno que se abriria sob nossos pés. Noiva de Cristo, Irmã Rosa, para mim, cheirava enxofre.

Então, a moça apareceu, saída não sei de onde, talvez de uma nuvem. Era quase menina, pouco mais do que uma adolescente. Entre aqueles vultos assexuados, rostos carrancudos, hábitos negros, a moça era mulher, como se fosse a única naquele pátio imenso. Linda, ela sorria. E foi como um raio de sol, uma fresta de luz, lufada de ar purificador. O sorriso da moça parecia absolver-nos dos pecados que nos eram pregados na alma pelo olhar da freira, a criadora de nosso pecado original. E as mãos da moça distribuíam bênçãos, acarinhando-nos os rostos infantis, alisando-nos os cabelos.

Pensei fosse uma fada, a que aparece no momento decisivo, impedindo a bruxa de transformar criancinhas em estátuas de sal. Mas, não. Ela era de carne, a pele luminosa como que de louça, mas sem ser de louça, a pele louçã, apenas louçã. Seu sorriso afugentava sombras, espantava bruxas, limpava nuvens. Parece-me, ainda hoje, que, ao vê-la surgir e sorrir, olhei para o alto, além do galpão, e vi azuis do céu, raios de sol. E a alma se me abriu à brisa generosa de seu olhar. Eu não sabia, mas lá estava ela, a professora. Minha primeira professora. Amei-a tão logo a vi. Meu primeiro amor.

Tive febre. Aos seis anos de idade, conheci a febre do amor. E aquela moça foi a primeira mulher – e, talvez, a única – que amei apenas com o coração, com a alma, como se eu me tivesse transformado em anjo, feito de suspiros e de vento. Ou algodão doce. Acho que foi isso: ela me transformou em algodão doce. Pois o mundo, a partir do pátio do colégio, se transfigurara na Terra Prometida a vida se fizera serena e generosa como riachos de leite e de mel. Em febre, eu a via em todos os cantos, no céu, no ar, no balanço dos cipós, na copa da mangueira onde eu me escondia para sonhar.

Foi, também, o meu primeiro segredo, guardado no fundo do peito, escondido no coração. Bastava-me vê-la, nada mais do que vê-la. Como um paisagem, um pôr-de-sol, um alvorecer. Ela se tornara tudo para mim. E eu quis ser o melhor para ela, medroso de vir a entristecê-la, de poder magoá-la. Cada lição de casa, eu a fazia como se embrulhasse um presente em papel de seda. Era minha maneira de amar: aprender o que ele ensinava. Ao amor de cada sua lição, eu queria responder também com amor.

Um dia, o segredo foi descoberto. Uma minha prima viu quando pulei a janela e, sobre a mesa de Dona Romilda, deixei um buquê de rosas que eu roubara do jardim. “Ele é ladrão de flor, ele é ladrão de flor.” – denunciou-me a priminha. Foi o meu primeiro crime, crime de amor: roubei flores para Dona Romilda Casale, meu amor de criança.

Em mais esta semana dos professores, repito tudo isso. E, para ela, roubo, do coração, todas as flores de minha gratidão. Bom dia.

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